Auto cura pela respiração
Porque a respiração indica os ritmos da vida, o modo como respiramos assinala a disposição das nossas energias. A agitação ou a excitação torna a respiração irregular e rápida; mas quando estamos calmos e equilibrados o nosso respirar é regular, lento e suave. Podemos modificar também o nosso estado mental e físico pela maneira de respirar. Até quando estamos muito perturbados nos podemos acalmar e equilibrar, respirando lenta e regularmente. Segundo a medicina tibetana, a “energia da respiração”(em tibetano: rlung) está por detrás de todas as energias físicas e mentais…há um caráter de reciprocidade entre a mente e a energia da respiração, de sorte que o domínio e estabilização da energia da respiração estabiliza a mente…aliás, esse é o princípio básico de todo o yoga
Quando a respiração é consistentemente calma e regular, a energia aumenta e a saúde melhora. Dormimos melhor. Todo o organismo mental e físico se equilibra. A mente faz-se mais lúcida e o corpo alerta e sensitivo: a audição é mais clara, as cores são mais vibrantes e é possível saborear melhor os gostos da experiência. As tonalidades dos sentimentos são mais ricas, de modo que pequenas coisas podem ser desfrutadas tremendamente, como uma pequena gargalhada. Uma vez que soubermos estabelecer contato com a energia da respiração, a respiração se tornará numa fonte infinita de energias vitalizantes.
…Segundo a medicina tibetana, a energia da respiração se associa particularmente com o centro de energia ou chakra (em tibetano: khor-lo, litreralmente”roda”) da garganta, que não só a evoca, mas também lhe coordena o fluxo através de todo o corpo. Por conseguinte, é através do chakra da garganta que aprendemos mais facilmente a fazer contato e a equilibrar a energia da respiração e de outras energias subtis.
O chakra da garganta é descrito tradicionalmente como uma flor de dezasseis pétalas com duas florescências de costas uma para a outra, porém ligadas entre si. Uma flor de oito pétalas está diretamente associada ao chakra da cabeça; a outra, ao chakra do coração; à medida que as energias passam pelo chakra da garganta, fluem para fora, demandando os outros chakras. Quando o chakra da garganta está estabilizado e calmo, as energias fluem de modo equilibrado e coordenado: as energias mentais e físicas se integram e a própria respiração se equilibra e purifica. No entanto, normalmente, devido ao estilo de vida perturbado em que vivemos, o chakra da garganta é agitado, de modo que essas energias ficam “bloqueadas” e não fluem de forma adequada.
É possível, todavia, respirar de tal modo que o chakra da garganta se torne calmo e funcione suavemente. A maneira de fazê-lo consiste em respirar devagar e de modo uniforme, assim pelo nariz como pela boca, com a boca um pouco aberta e a língua tocando de leve e confortavelmente, o céu-da-boca. No princípio, isso não é muito confortável, mas, à medida que a energia viaja uniformemente para os chakras da cabeça e do coração, sentem-se os efeitos vitalizantes desse modo de respirar, cada vez mais fácil e agradável de executar. À medida que o fluxo de energias dentro de nós se equilibra, os nossos sentimentos e sensações se desdobram naturalmente e nós abrimo-nos para sensações profundas de realização.
Mas isso leva tempo. Por ser o fluxo de energias através de todos os nossos sistemas tão frequentemente desequilibrado, perdemos o contato com as sensações e sentimentos….habitualmente, os nossos fluxos de energias convergem excessivamente para o chakra da cabeça e em défice para o chakra do coração.
Todos os extremos emocionais e todos os desequilíbrios ocorrem nesse estado: emoção muito acentuada, como a raiva ou o ódio, ou a depressão severa e falta de energia. Enquanto o chakra da garganta não se organiza e as energias subtis não se distribuem uniformemente para o coração e para a cabeça, não podemos contatar efetivamente os nossos sentidos nem tocar os nossos verdadeiros sentimentos. Sem a energia necessária para ativá-los, os sentidos são incapazes de operar adequadamente e parecem estar adormecidos.
Respirando suavemente pela boca e pelo nariz, levamos a respiração, pouco a pouco, a um nível regular, e equilibramos o chakra da garganta. Esse respirar firme, igual e, contudo, não controlado, tem uma espécie de qualidade aberta. Até o respirar pela primeira vez dessa maneira, sentimos os sentidos a despertarem e começarem a mover-se.
No princípio, preste atenção ao respirar pelo nariz e pela boca, sem esforço e sem tensão. Deixe que o respirar seja natural; você não precisa pensar em fazê-lo corretamente…mas, seja como for, lá longe, a sua perceção se adverte de que o seu respirar é igualmente distribuído entre o nariz e a boca e entre a inspiração e a expiração.
À medida que você respira, o seu corpo se acalma e você se sente relaxado. Assim que perceber o sentimento de relaxamento, com as suas diferentes tonalidades de impressões sensoriais e delicadas sensações de bem-estar, prove-o e disfrute-o, mergulhando o mais plenamente possível nessas sensações…assim que estabelecer contato com o sentimento de relaxamento, você terá encontrado o caminho. Enverede por ele tão profundamente quanto puder; quanto mais você se aprofundar, tanto mais rico se tornará o sentimento e você poderá, então, colhê-lo e levar a colheita a todas as partes do seu corpo. Você poderá senti-lo até na medula dos ossos e fora do seu corpo também. Para onde quer que você olhe, lá estará o mesmo sentimento.
Em seguida, limite-se a acumular a qualidade desse sentimento, estimulando-o, tornando-o ainda mais rico, mais profundo e mais amplo. Encoraje a qualidade do respirar. Deixe que ele se torne alegre; acumule-o como se acumula água para criar energia elétrica. O sentimento é alegre, tremendamente aberto, com uma vasta qualidade de união. O sentimento pode tornar-se tão vasto que há uma qualidade quase avassaladora, tão poderosa que você sente não poder mais suportá-la. Finalmente, quando o sentimento adquire essa força, ela pode abrir todos os seus chakras, as suas células e sentidos; o seu corpo inteiro se torna equilibrado.
Praticando com firmeza esse respirar e contatando esse sentimento você poderá acumulá-lo cada vez mais até que você, afinal, tocará diretamente a sua essência. Você não precisa de interpretações nem de palavras-estará simplesmente ali de forma direta. Depois todas as vezes que quiser utilizar a energia, poderá fazê-lo. Como se adicionasse tempero à comida, você estará em condições de usar a quantidade que quiser, toda a vez que precisar dela.
`A medida que você desenvolver a qualidade do seu respirar, a atenção, nascida da experiência direta, se expandirá pouco a pouco até que a respiração e a atenção se transformem numa unidade. A partir de então, as energias da atenção e da respiração se estimularão umas às outras, e a energia crescerá, sempre fresca e acessível. O processo é quase como o de carregar uma bateria: você põe em contato a atenção, ou energia mental, com a respiração, e estimula a energia. Esse é o segredo da energia abundante. Ainda que ela seja escassa no momento, você poderá alcançá-la. Quando souber o que fazer para regenerar a sua energia e manter um bom suprimento dela, você poderá até dar-se ao luxo de distribui-la, pois terá dela um manancial infinito.
Quando você estiver consciente da sua respiração, toda a sua vida se equilibrará. Quanto mais energia acumular com a respiração, tanto mais o seu corpo se acalmará.
É importante, todavia, trabalhar continuamente com a respiração, pois, se você não o fizer, os efeitos durarão pouco tempo; o corpo, a mente e os sentidos voltarão a um ritmo desequilibrado. Por conseguinte, pratique esta respiração todos os dias, pelo menos durante três meses: de vinte a trinta minutos por dia ajudam bem. No princípio, talvez ajude a separar as diferentes qualidades desta respiração. Na primeira semana, respire bem suavemente, depois na segunda semana, respire muito lentamente…depois desenvolva um respirar regular e equilibrado, que também deve ser suave e lento. Procure manter a energia fluindo, acumulando-a e gerando-a com o respirar. A princípio você ficará alerta, prestando atenção à respiração. Depois gradualmente, desenvolverá uma qualidade de atenção como a meditação. Não importa o nome que você lhe der- relaxamento, atenção ou meditação- pois estes serão simples rótulos.
Logo que aprendermos a acumular energia, podemos prosseguir noite e dia, e não apenas em certos momentos. O corpo se relaxa completamente, a tensão muscular e os bloqueios mentais se dissolvem e a energia se distribui por toda a parte.
Comece por respirar facilmente. À medida que progride, respire mais devagar. Permita simplesmente que o respirar se saliente até se tornar, totalmente suave e regular, quase sem inspiração nem expiração.
A chave para a integração interna e do relacionamento equilibrado com o mundo reside nos nossos sentimentos e sensações.
Porque tanto as energias externas quanto as internas provêm do mesmo “respirar” ou “prana”, à medida que o nosso ambiente interno se modifica, modifica-se também a nossa relação com o mundo externo, e o universo se torna muito mais habitável, como se o mundo externo dos objetos e o nosso mundo interno dos sentidos - a nossa consciência- devessem fundir-se. Nós sustentamos o mundo, e o mundo nos sustenta, a nós e aos nossos sentidos. Estes nos dão prazer, e nós nos sentimos positivos; nós projetamos e recebemos de volta o que projetamos. O interior e o exterior se harmonizam e equilibram.