sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Desejo

                      
Para solucionar os nossos problemas humanos e encontrar a paz e felicidade duradouras, o Buda deu ensinamentos muito profundos, que devemos tomar como conselhos práticos. Os Seus ensinamentos são conhecidos como Dharma, que significa protecção suprema contra o sofrimento. O Dharma é o método efectivo para solucionar os nossos problemas humanos. Para compreender isso, devemos primeiro analisar a verdadeira natureza dos problemas que enfrentamos e identificar as suas causas.
Os problemas não existem fora da mente. A verdadeira natureza dos nossos problemas são as sensações desagradáveis, e estas fazem parte da nossa mente. Por exemplo, quando o nosso carro apresenta um problema, costumamos dizer: “Eu tenho um problema”. Mas, na realidade, o problema não é nosso, mas sim do carro. Os nossos problemas surgem, somente, quando temos sensações desagradáveis. Os problemas do carro existem fora da mente, ao passo que os nossos problemas estão dentro de nós. Se distinguirmos os problemas animados dos inanimados, compreenderemos que a verdadeira natureza dos nossos problemas são sensações, que, por sua vez, fazem parte da nossa mente.
Todos os nossos problemas, ou seja, as nossas  sensações desagradáveis, provêm das delusões do apego e da ignorância do auto-agarramento. Sendo assim, tais delusões são as causas principais dos nossos problemas. Temos um forte apego para satisfazer os nossos desejos e em nome disso trabalhamos incansavelmente ao longo da vida, experienciando inúmeras dificuldades e problemas. Quando os nossos desejos não são satisfeitos, ficamos infelizes e deprimidos, o que frequentemente nos leva a sentir raiva e a criar mais problemas, tanto para nós como para outros. Podemos compreender isso observando a nossa própria experiência. Quando perdemos os nossos amigos, trabalho, status, reputação, etc., experimentamos dor e muitas dificuldades devido ao forte apego que sentimos por essas coisas. Não fosse pelo apego, não haveria nenhum motivo para sofrer ou ter problema ao perdê-las.
Porque temos um forte apego pelas nossas visões ou opiniões, quando alguém nos contraria, surge imediatamente dentro de nós o problema das sensações desagradáveis. Isso faz-nos sentir raiva e, com raiva, discutimos e entramos em conflito com os outros, criando, assim, mais dificuldades. A maioria dos problemas políticos no mundo é causada por indivíduos que tem um forte apego pelas suas opiniões pessoais. Muitos outros problemas também se originam no apego que as pessoas nutrem pelas suas opiniões religiosas.
Em vidas anteriores, devido ao apego pela satisfação dos nossos desejos, cometemos inúmeras acções que prejudicaram outros seres vivos. Como resultado dessas acções, experienciamos agora numerosos problemas e sofrimentos.
Se nos olharmos no espelho do Darma, veremos porque o nosso apego, raiva e especialmente a ignorância do auto – agarramento são as causas de todos os problemas e sofrimentos que enfrentamos. Dessas três delusões principais surgem todas as outras delusões que são como véus que encobrem a nossa natureza real e que nos impedem de entrar em contacto com a nossa verdadeira essência. Compreenderemos definitivamente, que se não controlarmos essas delusões não poderemos solucionar os nossos problemas humanos. O Darma é o único método de controlar as nossas delusões - o apego, a raiva e a ignorância do auto-agarramento… Os ensinamentos de Buda são o método científico supremo para solucionar os problemas humanos. Se os colocarmos em prática com sinceridade, sem dúvida resolveremos os nossos problemas e encontraremos o verdadeiro sentido da nossa vida.





segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Felicidade e sofrimento são estados mentais


Todos os seres têm o mesmo desejo básico de ser feliz e não sofrer, mas poucos entendem quais são as verdadeiras causas da felicidade e do sofrimento. Costumamos acreditar que as condições exteriores, como a comida, os amigos, carros e dinheiro, são causas reais de felicidade e, assim, dedicamos quase todo o nosso tempo e energia para obtê-las. Superficialmente, parece que nos podem tornar felizes, mas um exame mais cuidado revela que elas também nos trazem muitos sofrimentos e problemas.
Felicidade e sofrimento são opostos. Assim, se algo for uma causa real de felicidade, não poderá ocasionar sofrimento. Se a comida, dinheiro, amigos, etc., forem realmente causas de felicidade, eles jamais poderão ser causas de sofrimento; contudo, sabemos por experiência pessoal que eles frequentemente causam sofrimento. Por exemplo, um dos nossos maiores interesses é a comida, mas a comida que ingerimos também é a causa principal de muitas das nossas indisposições e doenças. Para produzir tudo aquilo que achamos que nos trará felicidade, poluímos a tal ponto o nosso meio ambiente, que hoje o ar que respiramos e a água que bebemos ameaçam a nossa saúde e bem-estar. Amamos a liberdade e a independência que um carro nos proporciona, mas o custo disso em termos de acidentes e destruição ambiental é enorme. Achamos que o dinheiro é essencial para aproveitarmos a vida, mas a corrida pelo dinheiro também acarreta imensos problema e ansiedade. Até os nossos familiares e amigos, com quem desfrutamos de tantos momentos felizes, nos podem causar muita preocupação e tristeza.
Nos últimos tempos, o nosso conhecimento e controle do mundo exterior aumentaram consideravelmente e, como resultado, testemunhamos notáveis progressos materiais; contudo, não houve um aumento correspondente da felicidade humana. Não há menos sofrimento no mundo de hoje nem menos problemas. Na verdade, podemos até dizer que hoje existem mais problemas e que a infelicidade é maior do que nunca. Isso mostra que a solução para os nossos problemas e problemas da nossa sociedade como um todo, não reside no conhecimento e controle do mundo exterior.
Por que é que isso acontece? Felicidade e sofrimento são estados mentais, por isso, as suas principais causas não podem ser encontradas fora da mente. A verdadeira fonte da felicidade é a paz interior. Se a nossa mente estiver em paz, seremos felizes o tempo todo, independentemente das condições exteriores; mas se de alguma maneira ela estiver perturbada ou agitada, não nos sentiremos felizes por melhor que sejam essas condições. As circunstâncias exteriores só nos podem fazer felizes se a nossa mente estiver em paz. Podemos compreender isso por experiência própria. Por exemplo, ainda que estejamos no mais perfeito ambiente e tenhamos tudo o que desejamos, no instante em que ficamos com raiva, a nossa felicidade desaparece. Isso ocorre porque a raiva destrói a nossa paz interior. Vemos assim que se quisermos felicidade verdadeira e duradoura, temos que gerar e manter uma experiência especial de paz interior. A única maneira de fazê-lo é treinando a nossa mente com a prática espiritual, ou seja, reduzindo e eliminando gradualmente os estados mentais negativos e perturbados e substituindo-os por outros positivos e serenos. Aperfeiçoando continuamente a nossa paz interior, alcançaremos por fim a paz interior permanente, ou nirvana. Uma vez que tenhamos alcançado o nirvana, seremos felizes a vida inteira e em todas as nossas vidas. Teremos solucionado, então, todos os nossos problemas e realizado o verdadeiro significado da nossa vida humana.

As Quatro Contemplações Infinitas

“Que todos os seres sejam sempre felizes e possuam as causas da felicidade
Que todos estejam livres do sofrimento e das causas do sofrimento 
Que todos os seres nunca estejam separados da verdadeira felicidade que é isenta de sofrimento
Que todos possam actuar sempre com a compreensão da grande imparcialidade, livres de apego aos que lhe são queridos e de aversão aos outros”

Esta oração representa a atitude justa do estado de espírito iluminado. Se bem que na realidade esta linguagem nos possa parecer estranha, na realidade o seu significado é muito simples. Todos nós possuímos a essência do espírito iluminado no nosso coração. No entanto, devido à nossa ignorância, esta natureza essencial tem estado obscurecida e encoberta por negatividade, por falta de compreensão e por actos nocivos. Entre o nosso estado actual de espírito e o estado de espírito iluminado, há pois uma grande distância. Se bem que, para algumas pessoas, o caminho possa ser mais longo do que para outras, o importante é saber que há um caminho que podemos seguir para levar uma vida útil e feliz. Assim, esta oração expressa não só o estado de espírito que queremos alcançar, como os meios através dos quais podemos consegui-lo.
A motivação correcta consiste em desejar a felicidade e o bem-estar para todos, de modo que possam alcançar a paz e libertar-se das causas do sofrimento. Este é um objectivo que vale a pena e que dá a inspiração aos nossos esforços, quer as coisas corram bem quer não. Esta oração sugere um alto nível de compreensão. No entanto é útil definir o nosso objectivo, visto que o seu valor e a sua verdade são válidos para todas as etapas do caminho a percorrer.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

O Universo é uma projecção da nossa mente

"Todos os fenómenos são manifestações da nossa mente muito subtil. Eles surgem dessa mente como as ondas surgem do oceano.”
O grande Mahasiddha Saraha
Segundo o budismo tântrico a mente é um continuum sem forma, que tem como função perceber e entender os objectos; ela não é o cérebro ou qualquer outra parte ou função do corpo. O cérebro é um objecto físico que pode ser visto, fotografado ou submetido a uma cirurgia. A mente por outro lado, não é algo material. Ela não pode ser vista com os olhos ou fotografada ou operada. Não há nada dentro do nosso corpo que possa ser identificado como sendo a nossa mente, porque o corpo e a mente são entidades diferentes. Nas escrituras budistas, o nosso corpo é comparado a uma hospedaria, e a mente, ao hóspede que ali reside. Quando morremos, a mente deixa o corpo e vai para uma próxima vida, como um hóspede que sai de uma hospedaria e vai para outro lugar.
Existem três níveis de mente: densa, subtil e a muito subtil. As mentes densas, incluem percepções sensoriais, como a visual e a auditiva, e todas as mentes normais do estado desperto, inclusive as delusões (1), como a raiva, a inveja, apego e a forte ignorância do auto-agarramento (2). Essas mentes densas estão relacionadas com os ventos interiores densos e é relativamente fácil reconhecê-las. Os ventos interiores (3) são ventos-energia subtis que fluem pelos canais (4) do nosso corpo e servem para movimentar a mente para o seu objecto. Quando dormimos ou morremos, as nossas mentes densas dissolvem-se interiormente e as subtis tornam-se manifestas. As mentes subtis estão relacionadas com os ventos interiores subtis e são mais difíceis de serem reconhecidas do que as densas. Durante o sono profundo e no processo final da morte, os ventos interiores dissolvem-se no centro do chakra (5) do coração, dentro do canal central; então a mente muito subtil, a mente de clara luz, torna-se manifesta. A mente muito subtil está relacionada com o vento interior muito subtil e é extremamente difícil de reconhecê-la. O continuum dessa mente não tem começo nem fim; é ela que passa de uma vida para outra e que, se for completamente purificada pelo treino em meditação, se transformará na mente omnisciente de um ser iluminado.
Os cientistas modernos, embora ainda não aceitem a existência das mentes subtis e muito subtis, estão lançados na pesquisa do espaço externo e o espaço interno ou sub-atómico no nível grosseiro (denso).Já foram desenvolvidas muitas tecnologias para a utilização do espaço relativo externo e interno de uma forma benéfica como, por exemplo, a energia de fusão e a micro-electrónica. Geralmente, quando falamos no espaço, pensamos no espaço externo, o espaço do mundo e do cosmos que nos cerca. Todos nós temos uma imagem do espaço externo como algo de ilimitado e vazio, excepto pelo brilhar das estrelas, planetas e galáxias. No entanto, muito mais interessante que isso, é o facto de que todos nós possuímos um espaço interno correspondente no nosso ser. Na realidade, o espaço na nossa mente, no nosso mundo pessoal ou samsara pessoal, é maior do que todo o espaço deste planeta. E, assim como o espaço do universo externo, ele parece ilimitado e vazio. No entanto, o nosso espaço interno pessoal tem mais qualidades que o espaço externo. O espaço externo tem a capacidade de sustentar os fenómenos, enquanto o espaço interno é a nossa ilimitada capacidade para desenvolver a mente e o potencial humano. O espaço interior é grande como o Universo. Podemos achar isto estranho, mas o facto é que actualmente a física nuclear já comprovou que a energia existente entre as partículas mais pequenas no interior do núcleo dos átomos de hidrogénio é superior à energia contida em muitos anos luz do espaço sideral.
O Tantra é um sistema prático de ciência interior que trabalha coma as energias muito subtis do nosso corpo e mente, usando e desenvolvendo o nosso tsa, lung e thigle. Muito resumidamente podemos dizer que o Tsa é a rede de canais de energia subtis que permeiam todo o nosso corpo. Esses canais são muito mais subtis que as nossas veias, artérias e nervos; por isso não conseguimos vê-los, mesmo com microscópios ou máquinas de ressonância magnética. O tsa (ou canais subtis) existe no nosso corpo de energia subtil, e nele fluem os cinco maiores e cinco menores ventos subtis; estes ventos interiores a que a medicina tibetana chama de lung, sustentam por sua vez os diferentes níveis de mente. Os ventos interiores contêm a força vital ou prana (em tibetano srog-lung).Os tibetanos identificam um carácter de reciprocidade entre a mente e os ventos, de sorte que o domínio e estabilização dos ventos também estabiliza a mente. Esse é o princípio básico de todo o yoga. Poderemos compreender tal relação se reflectirmos em como o nosso padrão respiratório se altera conforme o nosso estado mental e emocional. Basta-nos pensar na diferença da nossa respiração quando estamos zangados e quando estamos concentrados. Por fim temos o sistema das gotas ou thigles, que constituem a essência da energia masculina e feminina e que são a base do nosso corpo de essência energética.
 Hoje em dia sabemos que os pequenos discos dos computadores são capazes de armazenar uma quantidade extraordinária de dados e informações e isso se deve ao facto desses discos estarem a utilizar a qualidade do espaço correctamente; segundo a tradição tântrica tibetana o corpo humano (que é considerado como o Agregado mais maravilhoso em todos os Universos), possuí dentro de si um “disco”, chamado “disco do espaço-vajra”, que tem uma capacidade de armazenamento de espaço, milhões de vezes superior aos mais avançados computadores actuais. O nosso ilimitado disco de espaço interior, encontra-se na nossa mente muito subtil e no vento contínuo subtil da energia sogdzin-lung e localiza-se no chakra do coração. Este é um dos cinco ventos principais e é a “base física” do nosso disco do espaço interior. Nesse disco, é armazenado todo o nosso conhecimento e as nossas experiências, e é feito o registo kármico (6) de todas as acções positivas e negativas, que nós cometemos ao longo do contínuo das nossas vidas anteriores até ao momento presente. Esse disco é a única bagagem que podemos levar connosco quando a nossa mente passa de uma vida para outra.
Todos os fenómenos do mundo externo e interno são flashes manifestando-se e desaparecendo da existência na esfera da vacuidade(7) e bem-aventurança. Todos os fenómenos passam por vários estágios de transformação ou manifestação, desde pura energia até a matéria grosseira. Da esfera da vacuidade e bem-aventurança surge uma sílaba-semente “mântrica“subtil pura, ou vibração pura, que se transforma nos incontáveis fenómenos grosseiros do universo relativo Na realidade, tudo aquilo que percepcionamos no chamado universo exterior e interior emana da nossa mente muito subtil e advêm do nosso karma. O facto de dois, ou mais seres, terem a mesma visão da vida, seja a que nível for, significa que o karma dessas pessoas é concordante, o que possibilita precisamente essa mesma visão…bom, mas isso será tema para outro artigo…até já.
(1) Factor mental que surge a partir da atenção imprópria e serve para tornar a nossa mente agitada e descontrolada. Existem três delusões principais: a ignorância, o apego e a aversão. Destas, nascem todas as demais - inveja, orgulho, dúvida deludida etc.
(2) Mente conceitual que considera todos os fenómenos como inerentemente existentes. Ela dá origem às demais delusões, como a raiva e apego. É a raiz de todos os sofrimentos e insatisfações.
(3) Correntes energéticas, que fluem através dos canais do corpo. O corpo e a mente não podem funcionar sem esses ventos. (este conceito será explicado com mais pormenor num próximo artigo*)
(4) São condutos internos subtis do corpo, através dos quais fluem as gotas subtis (thigles) movidas pelos ventos interiores
(5) Termo sânscrito, cuja tradução é roda-canal. Centro focal de onde os canais secundários saem do canal central. Meditar sobre esses pontos causa a entrada dos ventos internos no canal central (*)
(6) Karma significa acção e refere-se à lei de causa e efeito, segundo o qual todas as nossas acções de corpo, palavra e mente são causas, e todas as nossas experiências são os seus efeitos.
(7) Ausência de existência inerente, a natureza última de todos os fenómenos.


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Cerimónia de Libertação de Animais

Por ocasião do LOSAR (a entrada do novo ano, segundo o calendário budista), vai-se realizar uma libertação de animais, juntamente com a celebração de um ritual budista. É importante fazer a prática de libertar animais de forma o mais eficiente possível. Quando assim é, esta revela-se num método prático e poderoso para prolongar a vida, não só, evidentemente para os seres que são libertados, como para os seres envolvidos de alguma forma nessa atitude.
É uma prática corrente budista, em muitas partes do mundo, libertar animais que estão presos e destinados a uma morte violenta. Esta actividade, que coexiste com outras práticas caritativas destinadas a ajudar seres humanos em sofrimento, baseia-se nos ensinamentos do Buda sobre o Amor e a Compaixão universais e imparciais. Segundo estes ensinamentos, todos os seres vivos ou sensíveis desejam a felicidade e evitam o sofrimento. Dia e noite, mesmo em sonhos, instintivamente, tentamos evitar mesmo até o menor sofrimento. Isso indica que apesar de não estarmos plenamente conscientes disso, o que procuramos, de facto, é a libertação permanente do sofrimento. Por outro lado, todos os seres vivos, seja qual for a sua forma actual, já estabeleceram connosco relações próximas, ao longo dos seus inumeráveis renascimentos e vidas no ciclo da existência (Samsara). Os ensinamentos budistas consideram que todos os seres vivos já foram os nossos próprios parentes mais íntimos, pais, mães, filhos e filhas. Mediante esta tomada de consciência, visa-se tornar-nos sensíveis ao seu sofrimento actual, fazendo o que nos for possível para o diminuir e extinguir.
De todos os sofrimentos, a morte violenta é o maior, porque todos os seres estão acima de tudo apegados à vida. De todas as mortes, as mais dolorosas são as daqueles seres que são cozidos vivos, também devido ao tempo da cozedura, em função da dor e da sua diferente percepção do tempo, resultar para eles muito dilatado. É por isso que os budistas privilegiam a libertação de mariscos vivos – amêijoas, berbigão, santolas, lagostas, etc. - que se podem adquirir nos viveiros e libertar no alto mar ou em lugares fora do alcance ou da vista de quem possa querer apanhá-los. Também podem ser caracóis, minhocas para isco ou outros animais vendidos vivos nos mercados, como coelhos.
Normalmente, escolhem-se os dias de lua nova ou lua cheia, bem como dias consagrados do calendário budista, em que por motivos astro-cosmológicos a energia vital está mais concentrada em nós e no mundo e os efeitos kármicos das acções, positivas ou negativas, se multiplicam imenso. Esta libertação será feita na 1ª semana depois do Losar, pois, segundo os ensinamentos budistas, os 15 primeiros dias do novo ano tibetano são dias consagrados a actividades especiais realizados pelo Buda e revestem-se de uma importância excepcional devido, entre outros, ao facto de que neste período de tempo os efeitos cármicos das acções feitas serem multiplicados por milhões de vezes. Fazem-se orações e repetem-se mantras pelos animais que se vão libertar e procede-se à sua libertação. Assim, a prática de dar o Dharma, através da recitação de orações e mantras é extremamente importante. Se simplesmente compramos animais e os soltarmos onde não existe perigo para as suas vidas, não estamos a trazer-lhes muitos benefícios. Visto que não tem a oportunidade ouvir o Dharma, a maioria, quando morre, continua a renascer em mundos inferiores. Claro que a nossa acção traz algum benefício aos animais porque estamos a prolongar as suas vidas, mas o maior benefício vem do facto de ouvir a recitação do Dharma. Recitar mantras e falar sobre o bodhichitta, deixa marcas nas mentes dos animais e assegura que no futuro possam-se reunir as condições adequadas para que esses animais possam efectivar o caminho para a iluminação. Segundo os ensinamentos do Buda, a virtude e os méritos, o karma positivo, acumulado pela salvação de vidas é enorme, tem um grande poder purificador das nossas próprias acções negativas passadas e pode ser dedicado para ajudar outros seres que passam por situações de sofrimento e doença, que estão moribundos ou já morreram. O poder benéfico desta dedicatória será tanto maior quanto mais se estenda a todos os seres, incluindo, naturalmente, todos os homens que causam directa ou indirectamente a morte de outros seres vivos, pescando-os, caçando-os, comercializando-os e comendo-os, e criando as condições para virem a passar pelos mesmos sofrimentos no futuro. Esta prática visa pois beneficiar todos os seres sensíveis, independentemente, da sua forma actual.
Todos são convidados a associar-se a esta prática, sejam ou não budistas. Os interessados em participar nesta prática devem comparecer no dia 5 de Março às 07h00 (pede-se a maior pontualidade) em frente à porta da lota de Matosinhos. Quem pretender enviar o seu donativo, caso não possa estar presente no local, hora e data indicados, poderá fazê-lo para o NIB: 0018 0003 2486 0967 0202 7 – Banco Santander Totta.