terça-feira, 22 de março de 2011

Nossa verdadeira natureza

Em geral, quando falamos de espírito não sabemos muito bem do que estamos a falar. Devido à sua perspectiva materialista, a cultura ocidental considera que a consciência depende do funcionamento do cérebro e que a actividade cerebral e consciência são dois nomes para a mesma coisa. Para o budismo não é assim. Dilgo Khyentse Rinpoché (1) diz: “aquilo a que habitualmente chamamos de espírito é o espírito iludido; é um turbilhão de pensamentos atiçados pelo desejo, pela aversão e pela ignorância. Esse espírito, ao contrário da consciência iluminada, que é a nossa verdadeira natureza, anda sempre enganado”.
Para o Budismo, o objectivo do Dharma (2) é o reconhecimento dos níveis mais profundos do espírito para podermos atingir a libertação definitiva da ilusão. A Natureza Verdadeira da mente é pura como a água cristalina de uma nascente da montanha. Independentemente da sujidade que essa água possa vir a ganhar ao longo do seu percurso pela montanha, a natureza da água permanece sempre pura. Isto é uma analogia que mostra o que se passa connosco; o que dá início à sujidade da água pura da montanha é, por analogia, a ignorância. Ou seja, uma vez surgida a ignorância face à nossa verdadeira natureza, mergulhamos naquilo a que se chama dualidade, a separação do espaço-tempo. Uma vez surgida a ignorância surge o pensamento. Este cria o conceito ilusório do “eu”, deste agregado a que nós chamamos de ego, e ao qual tanto nos agarramos, ao qual tanto nos identificamos e apegamos como algo de intrinsecamente real, de sólido, de tangível. Este “eu” uma vez surgido, é um conceito fabricado pelo espírito que está iludido, que está obscurecido e não é o espírito na sua verdadeira natureza. O espírito que pensa “eu”, é totalmente desprovido da existência e de carácter substancial. No entanto, assim que surge o conceito do “eu” apegamo-nos a ele como algo de sólido, de real e é a partir daí que o corpo vem à existência com os seus 5 sentidos e 8 consciências. A partir da ignorância, o mundo, ou nos atrai ou nos repela, ou seja, ou somos muito atraídos pelas coisas ou as repelimos – nasce assim o desejo e a aversão. Assim, ambos procedem da ignorância de não vermos o mundo tal como ele é. Como ambos procedem da ignorância, diz-se que esta é a causa-raiz da ilusão, o veneno base.
Os três venenos chamam-se Kleshas; uma vez surgidos estes três venenos - a ignorância, o apego e a aversão - nascem as emoções perturbadoras. Por exemplo, se somos fortemente atraídos por algo, tal se transformará em desejo-apego, o que atrairá a inveja, o orgulho e por ai fora. Assim, os três Kleshas principais encadeiam, irremediavelmente, as emoções perturbadoras que são, afinal, um véu. O véu de emoções perturbadoras impede-nos de ver a natureza do nosso próprio espírito e alimenta aquilo que se chama espírito iludido. De tal modo nos distrai que continuamos, vida após vida, submetidos aos elementos que nos impedem de ver a vida tal como ela é. Uma vez surgidas estas emoções, elas impelem-nos ao movimento. Surge assim o Karma. Os movimentos ou acções podem ser realizados por três portas: a do corpo, a da palavra e a do espírito. Uma vez realizadas estas acções, elas provocam, irremediavelmente, uma consequência; para as acções ditas brancas, as consequências serão, frequentemente, mas nem sempre brancas e, para as acções negras, as consequências serão igualmente quase sempre negras. Devido a estes actos surgidos da ignorância face à nossa natureza real, mergulhamos no Samsara – o ciclo vicioso das existências. As acções produzem consequências e quando estas se manifestam sob a forma de experiências e de acontecimentos, reagimos a elas, acumulando mais Karma. Do Karma surgem as 6 classes de seres que vivem nos 6 mundos, com toda a variedade de alegrias e de penas. Karma significa “acção” e refere-se às nossas acções de corpo, palavra e mente. Toda a acção deixa uma marca ou potencialidade na nossa mente muito subtil e cada uma dessas marcas dá origem à sua própria reacção, ao seu próprio efeito.
A nossa mente é como um campo de cultivo e realizar acções é como plantar sementes no campo. Acções positivas semeiam felicidade futura, acções negativas semeiam sofrimento futuro. As sementes que plantamos no passado permanecem em estado dormente até que as condições necessárias para que elas germinem se reúnam. Em alguns casos, isso acontece só ao fim de várias vidas depois da acção original ter sido cometida. O sofrimento é criado pelos nossos próprias acções ou Karma; não nos é dado como punição. Sofremos porque, nas vidas anteriores, cometemos muitas acções não virtuosas. A fonte de todas essas acções negativas, são as nossas próprias ilusões, nascidas da ignorância, enfim, nascidas do apego ao ego. Uma vez que tenhamos purificado a nossa mente das ilusões, as nossas acções serão naturalmente puras. Como resultado todas as nossas experiências serão naturalmente puras.

(1) Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche Tashi Paljor foi um dos maiores Mestres detentor de linhagem, escritor, professor e transmissor dos ensinamentos e poderes dos tantras Nyingma em geral e do Longchen Nyingthig em particular, que alcançou numerosos discípulos no Tibet, na Índia, no Nepal, no Butão e no Ocidente.
(2) Os ensinamentos de Buda e as realizações interiores alcançadas na dependência de praticá-los.

                                                                 

domingo, 13 de março de 2011

Mantra do Mestre de Diamante



Padmasambhava, que quer dizer “Nascido do Lótus”, conhecido por vários nomes, entre eles Guru Rinpoche (Precioso Mestre), foi o fundador do Budismo Tibetano. O seu mantra Om Ah Hum Vajra Guru Padma Siddhi Hum (em sânscrito) é um dos mais conhecidos e poderosos no Budismo Tibetano. E se diz que este mantra contém a essência de todos os Budas (do passado, presente e futuro).
 O diálogo que se segue é uma tradução livre de certas passagens de um texto escrito no século VIII e relata uma conversa entre Padmasambhava e a dakini Yeshe Tsogyal, sua principal discípula tibetana.
Após ter apresentado a Guru Rinpoché as oferendas exteriores, interiores e secretas, Yeshe Tsogyal fez-lhe o seguinte pedido:
«Oh Mestre Venerado, para o meu bem e para o bem dos seres a vir, considerai este meu pedido. O fato de vos ter encontrado é para mim e para as pessoas do meu tempo um bem inestimável. Nos tempos vindouros, encontrar-se na presença de um ser como vós será extremamente difícil. Pessoalmente, recebi ensinamentos, conselhos e práticas com abundância e todas as dúvidas me abandonaram. Em contrapartida, vós mesmos haveis previsto dificuldades consideráveis para os homens e mulheres dos tempos futuros: de espírito turbulento, grande dificuldade terão para encontrar e compreender os ensinamentos autênticos. A profusão de visões desgarradas e de ensinamentos falaciosos ensombrarão os seus espíritos, quão difícil lhes será discernir o verdadeiro do falso! Mais ainda, muito renitentes ficarão diante dos verdadeiros ensinamentos. Chegada a época dos desastres, das guerras, das fomes e doenças, os seres irão vaguear de continente em continente, sempre em fuga, como formigas escorraçadas do formigueiro. Haveis dado numerosas indicações sobre a maneira de repelir as calamidades e as idades difíceis; todavia, esses tempos vindos, muitos desejarão voltar-se para o Dharma, mas há-de faltar-lhes o vagar. Quanto aos que exprimirem um real interesse pela prática, difícil lhes será aprofundá-la. A discórdia reinará entre os seres; tanto os seus alimentos como os objectos usuais perderão as qualidades naturais e serão contaminados. Para entravar essas condições nefastas, haveis já invocado o poder dos mantras e do mantra do Mestre de Diamante em particular. Tende a bondade de nos explicar esse mantra e o modo de o utilizar.»
O grande sábio respondeu:
«É verdade, nesses tempos os desastres e as calamidades irão abater-se. Em intenção dos seres que então viverão, escondi tesouros em diferentes sítios do planeta – em rochedos e montanhas, nos rios e também no coração de seres predestinados. Esses tesouros serão extremamente benéficos. Quanto ao mantra do Mestre de Diamante, é também o mantra de todos os seres iluminados. Nos tempos difíceis poderá ser cantado em lugares sagrados ou em lugares solitários, no cimo das montanhas, à beira de rios ou dos oceanos, ou ainda em lugares varridos por catástrofes. Haja um grande praticante, um monge autêntico ou alguém de imensa compaixão que então o recite cem, mil, dez mil, cem mil vezes ou mais, e o resultado será inconcebível. O som do mantra poderá estrangular ou afastar todo o tipo de flagelos, tais como doenças, fomes ou guerras, bem como as consequências do desequilíbrio da Natureza: colheitas más, chuvas torrenciais, inundações ou secas. Este mantra contém em si imensos poderes, que permitem equilibrar os diferentes elementos tanto no plano exterior como interior e secreto. Quem quer que o pratique encontrará o Perfeitamente Iluminado, o Buda, nesta vida, nas vidas futuras ou no estado intermediário, em sonho ou em realidade. Aquele ou aquela que, com uma compaixão autêntica, o recitar regularmente, pelo menos cem vezes por dia, não conhecerá qualquer dificuldade material e verá os seus desejos cumprirem-se pelo poder dessa recitação. Aquele ou aquela que o recitar mil vezes por dia receberá incalculáveis bênçãos, bem como a capacidade de socorrer os demais de modo inconcebível. O praticante que o recitar cem mil vezes ou dez vezes cem mil de modo contínuo, ou seja, todos os dias e sem interrupção, poderá pacificar tudo o que é negativo e adquirirá para si e para os demais o poder de prolongar a vida e aumentar a sabedoria, e poderá dominar os fenômenos e subjugar as forças negativas. O seu poder de ajudar os outros aumentará consideravelmente. Quem quer que faça trinta ou setenta vezes cem mil recitações de maneira contínua, tornar-se-á inseparável dos Budas do passado, do presente e do futuro e receberá conselhos e indicações directamente dos seres iluminados. Todos os seus votos se realizarão. Pelo melhor, obterá no espaço de uma única vida o corpo de arco-íris. A um nível mediano, alcançará a liberdade última no momento da morte. No pior dos casos, durante o bardo, eu, Padmasambhava, virei em pessoa para o guiar na via da completa Iluminação.»
De novo, Yeshe Tsogyal disse: «Mestre, eis uma prática verdadeiramente extraordinária! Tende a bondade de nos explicar o sentido deste mantra, de tal modo que os seres humanos vindouros possam compreendê-lo melhor.»
Padmasambhava deu-lhe então uma resposta extremamente pormenorizada, da qual se seguem alguns extractos:
«Este mantra é a essência de todos os mantras. Através dele podemos explicar todas as ciências e todos os ensinamentos que existem. Ouve com atenção, coloca por escrito o que vou dizer e explica-o então a quem tenha necessidade:
Om corresponde à natureza do corpo, Ah à natureza da palavra e Hung à natureza do espírito de todos os Budas. As cinco palavras Vajra Guru Padma Siddhi Hung referem-se aos cinco aspectos ou ‘famílias’ de Buda: a famí1ia do Diamante (Vajra), da Jóia (Ratna), do Lótus(Padma), do Duplo-Vajra (Karma) e da Roda (Buda). Representam as cinco sabedorias: a sabedoria como o espelho, a sabedoria da equanimidade, a sabedoria que discerne, a sabedoria que tudo realiza e a sabedoria do espaço absoluto.
Quanto ao efeito deste mantra: As três sílabas Om Ah Hung têm o poder de purificar os seres dos três principais venenos, que são a aversão, o apego e a ignorância. As sílabas Vajra Guru Padma Siddhi Hung actuam sobre as emoções de modo mais específico: Vajra pacifica a emoção grosseira da aversão e os obscurecimentos que ela provoca; Guru dissipa os véus grosseiros e subtis do orgulho; Padma suprime os véus e as emoções provenientes do apego; Siddhi aplica-se à inveja e ao ciúme; Hung purifica da ignorância e dos véus subtis que ela implica. Este mantra não trata apenas as desordens emocionais devidas aos cinco venenos, trata também dos seus efeitos sobre o corpo físico: os desequilíbrios que perturbam os órgãos principais. Podemos igualmente dar uma tradução literal deste mantra: Om Ah Hung: o corpo, a palavra e o espírito. Vajra: o diamante indestrutível. Guru: supremo, o mestre. Padma: o lótus. Siddhi: as realizações. Hung: receber, reunir, perfazer.
Este mantra possui um grande poder de protecção contra as forças exteriores susceptíveis de perturbar o espírito e os órgãos vitais. Pode repelir e suprimir todas as formas de violência, caso alguém de imensa compaixão o pratique assiduamente ou numerosas pessoas o recitem em uníssono: Om Ah Hung repele os conflitos armados derivados dos três venenos de um modo geral. De modo mais específico e em relação com os cinco venenos, Vajra repele as guerras causadas pela cólera; Guru as que nascem do orgulho; Padma as devidas ao apego egoísta; Siddhi as que são inspiradas pela inveja e pela cobiça; Hung as que resultam de uma influência exterior súbita, fonte de desequilíbrios (por exemplo, a influência que impele os dirigentes das nações a agir de maneira irresponsável).»