sexta-feira, 29 de abril de 2011

Conselhos de Atisha

Certa vez, o Venerável Atisha* foi questionado pelos seus discípulos: Qual é o ensinamento mais elevado do caminho? Atisha respondeu:

A mais alta habilidade é a realização do estado sem ego.
A mais elevada nobreza está em subjugar a sua própria mente.
A mais elevada excelência está em ter uma mente que procure ajudar os outros.
O mais elevado preceito é a contínua vigilância e plena atenção serena.
O mais elevado remédio está em compreender a ausência de realidade de todas as coisas.
A mais elevada actividade está em não se conformar com preocupações mundanas.
A mais elevada realização é a diminuição e transmutação das paixões.                                                                                                            A mais elevada generosidade se encontra no desapego.
A mais elevada disciplina é uma mente pacífica.
A mais elevada paciência é a humildade.
A mais elevada persistência é abandonar o apego a todo fazer.
A mais elevada meditação é uma mente sem pretensões ou inclinações.
A mais elevada sabedoria é não se agarrar a algo assim que aparecer.


Ao deixar a província ocidental de Nari, Atisha deu o seguinte aconselhamento aos seus discípulos reunidos:

Amigos, até que tenham obtido iluminação, o Professor Espiritual é necessário; logo, apoiem-se no Sagrado Professor Espiritual. Até que tenham realizado completamente a natureza da vacuidade, vocês devem ouvir o ensinamento; logo, ouçam atentamente o preceito do Professor. Meramente saber o Dharma não é suficiente para se tornarem iluminados; vocês devem praticar constantemente. Vão para longe de qualquer lugar que seja danoso à prática; permaneçam sempre num local que seja condutor da virtude. O alarido é danoso até que obtenham uma mente firme; logo, fiquem num local isolado. Abandonem os amigos que fortalecem os grilhões das suas paixões; apoiem-se nos amigos que façam aumentar a virtude. Mantenham isso em mente. Nunca haverá um fim nas coisas a fazer, portanto, limitem suas actividades. Dediquem sua virtude dia e noite e estejam sempre serenamente alertas.
Uma vez que tenham obtido o preceito do Professor Espiritual, vocês deveriam sempre meditar no ensinamento e agir em harmonia com o ensinamento do Professor. Quando fizerem isso com grande humildade, os efeitos se manifestarão sem atraso. Se agirem de acordo com o Dharma a partir das profundezas do seu coração, tanto a comida quanto os itens necessários virão naturalmente.
Amigos, não há satisfação nas coisas que vocês desejam. É como beber água do mar para satisfazer a sede. Logo, estejam contentes. Aniquilem todas as formas de pretensão e ambição, orgulho e conceito; subjuguem-se e sejam pacíficos. Abandonem tudo que alguns chamam de "virtude", mas que na verdade são um obstáculo à prática do Dharma. Como se fossem pedras num estreito caminho escorregadio, vocês devem limpar todas as ideias de ganho e respeito, pois elas são a armadilha do demónio. Como ranho no nariz, assoem todos os pensamentos de fama e exaltação, pois eles servem apenas para iludir e enganar.
Já que a felicidade, o prazer e os amigos que vocês têm acumulado, duram apenas um momento, virem as costas para eles. A vida futura não é mais longa do que esta vida, portanto cuidadosamente zelem seu tesouro de virtude para se proverem no futuro. Vocês deixarão tudo para trás quando morrerem; não se apeguem a nada.
Deixem para trás o ato de desanimar e depreciar os outros e gerem uma mente compassiva por aqueles que são seus inferiores. Não tenham apego profundo por seus amigos e não discriminem seus inimigos. Sem serem invejosos ou cobiçosos das boas qualidades dos demais, com humildade desenvolvam estas qualidades vocês mesmos. Não se incomodem examinando as falhas dos demais, mas examinem as suas próprias. Purguem-se delas como sangue ruim. Tampouco se devem concentrar nas suas próprias virtudes; ao invés, respeitem-nas como um servo faria. Estendam amor e gentileza a todos os seres como se eles fossem seus próprios filhos.
Sempre tenham um rosto sorridente e uma mente amável. Falem honestamente e sem raiva. Se saírem dizendo muitas coisas sem sentido, vocês cometerão erros; assim, falem com moderação. Se fizerem muitas coisas sem sentido, seu trabalho virtuoso cessará; abandone as acções que não sejam espirituais. É inútil esforçar-se com trabalho inessencial. Já que qualquer coisa que aconteça com vocês vem como resultado de seu karma passado, os resultados nunca coincidirão com seus desejos presentes. Logo, fiquem calmos.
Oh… é bem melhor morrer do que causar a vergonha de uma pessoa santa; logo, vocês devem sempre ser francos e sem falsidade. Toda a miséria e felicidade desta vida surge do karma desta e de vidas passadas; não culpem os outros por suas próprias circunstâncias.
Até que vocês se subjuguem, vocês não podem subjugar outros; logo, primeiro subjuguem-se a si mesmos. Vocês não têm capacidade para amadurecer os demais sem clarividência; façam um grande esforço para atingir a clarividência.
Vocês certamente morrerão, deixando para trás qualquer riqueza que tenham acumulado; logo, tenham cuidado para não reunirem aviltamento devido à fortuna. Já que prazeres que distraem não têm substância, adornem-se com a virtude da doação. Sempre mantenham disciplina ética pura, pois ela é bonita nesta vida e assegura felicidade em vidas futuras. Nesta era da Kaliyuga, na qual o ódio é desenfreado, assumam a armadura da paciência, que anula a raiva. Permanecemos no mundo pelo poder da preguiça e indolência; assim, devemos atear fogo como que num incêndio ao nos esforçarmos pelo atingimento. Momento após momento, suas vidas são desperdiçadas quando atraídas pela isca, pelo engodo das actividades mundanas; é tempo de meditar. Por estarem sob a influência de visões erróneas, vocês não percebem a natureza da vacuidade. Zelosamente busquem o significado da realidade!
Amigos, o samsara é um vasto pântano no qual não há felicidade verdadeira; corram para o local da liberação. Meditem de acordo ao preceito do Professor e sequem o rio da miséria samsárica. Tenham sempre isso em mente. Ouçam bem esse conselho, que não é feito de meras palavras, mas que vem directo de meu coração. Se seguirem esses preceitos, não farão feliz apenas a mim, mas a vocês mesmos e a todos os outros da mesma forma. Embora eu seja um ignorante, eu lhes instigo a lembrarem dessas palavras.


Numa outra vez, Atisha afirmou:

Esta era negra não é o tempo para demonstrar sua habilidade; é o tempo de perseverar através do apuro. Não é o tempo de ter uma posição elevada, mas tempo de ser humilde. Não é tempo de se apoiar em muitos atendentes, mas tempo de se apoiar na solidão. Tampouco é tempo de subjugar discípulos; é tempo de subjugar-se. Não é tempo de meramente ouvir palavras, mas tempo de contemplar seu significado. Não é tempo de visitar aqui ou acolá; é tempo de permanecer só.


Quando o venerável Atisha estava em Yerpadrak, perto de Lhasa, ele deu o seguinte preceito:

Nobre filhos, reflictam profundamente nestas palavras. Na era negra, as vidas são curtas e há muito a ser compreendido. A duração da vida é incerta; vocês não sabem por quanto tempo viverão. Assim, vocês devem fazer grandes esforços agora, para preencher vossos desejos correctos.
Não se proclamem monges se vocês obtêm as necessidades da vida à maneira de um leigo. Embora vivam num mosteiro e tenham abandonado as actividades mundanas, se vocês se agitam pelo que abandonaram, não têm direito de proclamar, "Sou um monge vivendo num mosteiro". Se suas mentes ainda persistem em desejos por coisas agradáveis e ainda produzem pensamentos danosos, não proclame, "Sou um monge vivendo num mosteiro". Se ainda se rodeiam com pessoas mundanas e desperdiçam tempo em conversas mundanas e sem sentido com aqueles com quem vivem, ainda que estejam vivendo num mosteiro, não proclamem, "Sou um monge vivendo num mosteiro". Se são impacientes e saem-se sentindo menosprezados, se não conseguem ser ao menos um bocadinho de auxílio aos outros, não proclamem, "Sou um monge bodhisattva".
Se falam assim com pessoas mundanas, vocês são grandes mentirosos. Vocês podem-se safar ao dizer tais coisas. Contudo, não podem enganar aqueles que têm a vasta e ilimitada visão da clarividência, nem podem enganar aqueles que têm o olho dhármico da grande omnisciência. Nem se podem enganar a si mesmos, pois os efeitos do karma os seguem.
Para permanecerem num mosteiro, é necessário abandonar os modos mundanos e o apego aos amigos e parentes. Ao renunciarem a suas companhias, estão se livrando de todas as causas conexas de apego e nostalgia. Daí em diante, vocês devem procurar a preciosa bodhichitta. Nem mesmo por um instante devem permitir que surja a obsessão passada com assuntos mundanos. Primeiramente, vocês não praticaram adequadamente o Dharma e, sob a influência de hábitos passados que minaram suas forças, vocês continuamente produziram os conceitos de uma pessoa mundana. Como tais conceitos são predominantes, a menos que façam uso de fortes antídotos a eles, é inútil permanecer num mosteiro. Vocês seriam como os pássaros e animais selvagens que lá vivem.
Em resumo, ficar num mosteiro não será de auxílio se vocês não reverterem a obsessão por coisas afáveis e não renunciarem às actividades desta vida. Pois se não cortarem essas inclinações, ao pensarem que podem trabalhar pelos objectivos tanto dessa como de vidas futuras, vocês não realizarão qualquer coisa, a não ser práticas religiosas acidentais. Esse tipo de prática não é qualquer coisa a não ser prática hipócrita e pretensiosa feita por ganho egoísta.
Conseguinte, vocês devem sempre procurar amigos espirituais e se afastar de má companhia. Não se tornem radicados em um local nem acumulem muitas coisas. O que quer que façam, façam-no em harmonia com o Dharma. Deixem que qualquer coisa que façam seja um remédio para os grilhões das paixões. Essa é a verdadeira prática religiosa; façam grande esforço para isso. Conforme seu saber aumentar, não sejam possuídos pelo demónio do orgulho.
Ao permanecerem num local isolado, subjuguem-se. Tenham poucos desejos e estejam contentes. Não se deleitem em seu próprio conhecimento, nem procurem as falhas dos outros. Não sejam covardes ou ansiosos. Sejam de boa vontade e sem preconceitos. Concentrem-se no Dharma ao se distraírem pelas coisas erradas.
Sejam humildes e, se forem derrotados, aceitem isso graciosamente. Abandonem a ostentação; renunciem ao desejo. Sempre gerem uma mente compassiva. O que quer façam, façam-no moderadamente. Sejam facilmente contentáveis e facilmente sustentáveis. Corram como um animal selvagem do que quer que possa aprisioná-los.
Se não renunciarem à existência mundana, não digam que vocês são sagrados. Se não renunciarem à terra e à agricultura, não digam que adestraram a Sangha. Se não renunciarem ao desejo, não digam que são monges. Se não tiverem amor e compaixão, não digam que são bodhisattvas. Se não renunciarem ao fazer, não digam que são grandes meditadores. Não estimem seus desejos.
Em resumo, quando estiverem num mosteiro, engajem-se em poucas actividades e apenas meditem no Dharma. Não tenham causa para arrependimentos no momento da morte.


*Atisha foi um grande erudito e mestre de meditação indiano, abade do monastério budista Vikramashila na época em que o budismo mahayana florescia na Índia. Quando foi para o Tibete, ajudou a restabelecer o budismo mahayana.O Mestre viveu entre 982 e 1054 e a sua linhagem ficou conhecida como Kadampa.



sexta-feira, 22 de abril de 2011

O PRECIOSO NASCIMENTO HUMANO

           
        O nosso corpo pode ser comparado a um barco e a nossa mente, ao seu capitão. Se os utilizarmos bem, poderemos cruzar as traiçoeiras correntes da existência cíclica até às margens da verdade absoluta. Obter essa excelente oportunidade e não fazer uso dela, representa um enorme desperdício, como se tivéssemos viajado para uma ilha de jóias que realiza desejos, e não tivéssemos trazido nenhuma de volta connosco. Que arrependimento sentiríamos! Tal renascimento representa o culminar de uma grande virtude e fervente aspiração de seguir na prática espiritual. Isso não significa que não hajam dificuldades e frustrações. Temos que suportar o nascimento, a doença, a velhice e a morte e, muitas vezes, não podemos obter o que queremos, ou evitar o que não queremos ou manter o que temos. Contudo, usufruímos de dezoito liberdades e condições favoráveis, resumidas no termo tibetano dal djor; dal aludindo ao facto de estarmos livres das oito condições desfavoráveis, e djor, de sermos dotados de dez condições favoráveis.
Sermos dotados das oito liberdades significa que estamos livres das circunstâncias que tornam a conexão com o Dharma quase impossível. Elas incluem o facto de estarmos livres do renascimento:
·         Como um ser dos infernos, ou um ser nascido nos reinos dos espíritos ávidos , ou animal, o que implica um insuportável sofrimento;
·         Entre os deuses de longa vida, que nos seduz com irresistíveis prazeres dos sentidos (nos reinos inferiores dos deuses) e estados agradáveis de consciência (nos reinos superiores dos deuses);
·         Numa cultura perniciosa, que admite a violência e o mal e nos exclui do contacto com o Dharma sagrado;
·         Com visões erróneas, que nos faz depreciar o que é sagrado e benéfico e apreciar o que é prejudicial;
·         Numa era obscura, na qual nenhum Buda se tenha manifestado, privando-nos de um caminho espiritual; e, finalmente,
·         Com deficiências físicas ou mentais tão severas, que nos impossibilitassem de ouvir ou compreender os ensinamentos.
As dez condições favoráveis dividem-se em duas categorias. A primeira inclui condições que correspondem à situação particular da pessoa: ter nascido como ser humano, morar num lugar onde o Dharma pode ser encontrado, ter todas as faculdades em pleno funcionamento, não ter cometido crimes infames (como ferir um Buda, matar o pai ou mãe, ou causar uma forte cisão na sangha), e ter confiança na doutrina moral do Buda como a fundação de todas as qualidades positivas. A segunda categoria inclui condições que definem o contexto geral no qual o desenvolvimento espiritual ocorre: o surgimento de um Buda no mundo, o ensinamento da doutrina, a qualidade de duração da doutrina, a oportunidade de praticar os ensinamentos e a presença de professores, cuja compaixão altruísta e amor sustentem o empenho espiritual da pessoa.
A extrema dificuldade de se encontrar um renascimento plenamente dotado de todas as liberdades e condições favoráveis no reino humano é ilustrada por determinadas metáforas. Por exemplo, diz-se que o número de seres dos infernos comparado ao de seres humanos é como o número de partículas de poeira nessa terra, comparado ao de partículas de poeira sob a unha de um dedo. O número de seres humanos indiferentes à espiritualidade comparado ao daqueles que a procuram, é como a multiplicidade de estrelas que podem ser vistas à noite, comparada àquelas que são vistas durante o dia, e entre os que procuram o caminho espiritual, aqueles que o praticam com seriedade são ainda muito mais raros.
Outra forma de pensar sobre a dificuldade de se encontrar um renascimento humano, envolve a imagem de todo o universo como sendo um vasto oceano. Na superfície desse oceano, há uma bóia que flutua em função dos ventos e correntes e, nas profundezas desse oceano, nada uma tartaruga cega que sobe à superfície uma vez por século. As hipóteses de se encontrar um renascimento humano, são iguais às probabilidades que a tartaruga cega tem, que sobe à superfície a cada cem anos, de encaixar a sua cabeça no centro dessa bóia que flutua no oceano universal.
Os ocidentais, frequentemente, acreditam que uma pessoa renasce como ser humano vez após vez, e tendem a considerar suas vidas passadas como uma série de aventuras fascinantes que estão além da memória. No entanto, na verdade, todos tivemos uma interminável variedade de renascimentos desde o primórdio sem princípio da existência, cada qual, com um exacto reflexo do nosso karma e muito poucos deles como seres humanos.
O nosso corpo é uma entidade composta, que se desintegra em pó com a morte. A mente é insubstancial, mas tem uma poderosa continuidade. Tanto a sua natureza imutável quanto as suas tendências kármicas, continuam através dos ciclos de morte e renascimento. Temos somente que inspeccionar os pensamentos que nos vêm à mente, para constatar que só uma pequena fracção deles, é do tipo que gera um karma afortunado o suficiente para obtermos um nascimento humano plenamente dotado. A maioria dos pensamentos, está maculado pelo apego e pela aversão. Até os pensamentos subtilmente envenenados podem impedir um renascimento auspicioso, mas os piores pensamentos, repletos de violenta raiva, podem impelir-nos a um renascimento nos infernos.
Patrul Rinpoche compreendeu claramente a subtil conexão entre pensamentos, karma e renascimento. Teve uma vida simples e ascética, frequentemente viajando, sem nunca levar muitas coisas consigo, ouvindo ensinamentos de muitos lamas. Algumas vezes, esses lamas não faziam ideia que o humilde monge, que ouvia os seus discursos com tanta intenção, era o renomado escolástico Patrul Rinpoche, pois ele não dizia o seu nome, nem demonstrava o seu status com um dos mais reverenciados Lamas da sua geração.
Um dia ele parou numa campina. Enquanto descansava, desfrutando o céu azul e o tapete de flores que cobria a terra, pensou: "Que lindo!"… e logo a seguir acrescentou: "Que eu não renasça aqui!" Mais tarde explicou que o apego à beleza do lugar poderia levar a um renascimento ali, possivelmente como um animal, talvez até como um insecto, já que ali não havia habitantes humanos.
Se contemplarmos profundamente a preciosidade do nascimento humano, nos inspiraremos a fazer bom uso dele com o seu insuperável potencial para a iluminação. Tomá-lo como certo causará um pesar incomensurável. No tempo que nos resta, devemos treinar a nossa mente e vencer os pensamentos indomáveis, antes que se proliferem nas incontáveis formas do samsara.
                                                                                                                                    
Práticas Preliminares do Budismo Vajrayana: Instruções para o Dudjom Tersar Ngöndro
Compiladas dos ensinamentos de Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche por Chagdud Khadro
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sábado, 9 de abril de 2011

Extractos do Tesouro do Coração dos Iluminados

Por Sua Santidade Khyentse Rinpoché
Na grande vastidão do Universo, cada um e todos os inumeráveis seres sensíveis, desde o mais pequeno insecto, querem ser felizes e ninguém quer sofrer. Mas, nenhum deles compreende, na sua busca da felicidade, que ela unicamente provém das acções positivas; e ninguém consegue ver, no seu esforço para escapar ao sofrimento, que o que trás o sofrimento são as acções negativas. Por isso involuntariamente, viram as costas à felicidade e mergulham de cabeça no sofrimento.
Esperar a felicidade sem prescindir dum agir negativo é como meter a mão num fogo e esperar não se queimar. Claro que realmente ninguém quer sofrer, ficar doente, ter frio ou fome - mas enquanto continuarmos indulgentes com um agir incorrecto nunca poremos um termo ao sofrer. Da mesma maneira, nunca encontraremos a felicidade senão através de acções, palavras e pensamentos positivos. A acção positiva é algo que temos de cultivar por nós; não se consegue comprar ou roubar e ninguém vai tropeçar nela por acaso.
Tudo o que fazemos envolve o uso do corpo, da palavra e do espírito. Destes três, o corpo e a palavra por si sós são incapazes de iniciar qualquer actividade; é o espírito que determina tudo aquilo que dizemos e fazemos. O espírito, se o deixarmos de rédea solta, apenas continuara a originar cada vez mais acções negativas, e é assim que nos encontramos todos a vaguear no Samsara desde há vidas inumeráveis.
Em cada uma dessas inumeráveis vidas no samsara sem princípio, tivemos de ter pais. Na verdade, nascemos tantas vezes, que num ou noutro tempo, todos e cada um dos seres sensíveis foram com certeza nossos pais ou mães. Quando pensamos em todos esses seres que foram nossos pais há tanto tempo errando desamparados no Samsara, como cegos que perderam o caminho, não podemos deixar de sentir uma tremenda compaixão por eles.
No entanto, a compaixão por si só não é suficiente; eles precisam de uma ajuda efectiva. Mas enquanto o nosso espírito permanecer limitado pelo apego, dar-lhes somente comida, roupas, dinheiro ou simplesmente afeição, apenas lhes trará na melhor das hipóteses uma alegria temporária. O que precisamos é de encontrar uma maneira para os libertar completamente do sofrimento. O que só pode ser feito pondo os ensinamentos de Dharma em prática.
Portanto, antes de receberem estes preciosos ensinamentos, devem fazer surgir a motivação adequada, a qual é estudar e praticar não só para o nosso bem mas principalmente para libertar todos os seres do oceano do Samsara e levá-los à iluminação completa. Tal é a vasta e perfeita atitude da Bodhicitta.
A Bodhicitta, que significa “pensamento da iluminação”, tem dois aspectos, um dirigido a todos os seres e um apontado à sabedoria.
O primeiro é compaixão dirigida imparcialmente para todos os seres sensíveis sem discriminar entre os que nos são amigáveis e os que nos são inamistosos. Guardando esta compaixão constantemente em mente, devemos realizar qualquer acto positivo, mesmo a oferenda duma única lamparina ou a recitação dum único mantra, com a aspiração de que possa beneficiar todas as criaturas vivas sem excepção.
No entanto, para realmente poder ajudar todos os seres, não basta sentir compaixão por eles. Uma história frequentemente contada para ilustrar o que se entende por compaixão descreve o sentimento de uma mãe com paralisia nos braços, incapaz de impedir o seu bebé de ser levado pela correnteza dum rio; por muito forte que a sua compaixão possa ter sido, não lhe tornou possível salvar de afogamento o seu filho. O que quer que seja necessário para libertar os seres do sofrimento e levá-los à iluminação, temos realmente de o fazer. Compreendamos que temos a sorte de ter nascido num mundo onde um Buda apareceu e ensinou o Dharma, de termos encontrado um Mestre espiritual e termos recebido as suas instruções. Agora cabe-nos usar esta preciosa vida humana para progredir na via da libertação.
O segundo aspecto do Bodhicitta, o aspecto voltado para a sabedoria, é a realização da vacuidade de modo a alcançar a iluminação em benefício dos outros. Estas duas Bodhicittas - os meios hábeis da compaixão e a sabedoria da vacuidade - nunca devem ser separadas. São como as duas asas de um pássaro, ambas necessárias para que ele voe; não se pode realizar a iluminação somente através da compaixão, nem tão pouco através da realização da vacuidade por si só.
Fazer algo de virtuoso com uma motivação vulgar vai certamente trazer-nos alguma felicidade, mas só temporariamente. Essa felicidade logo se esvai, e o nosso derivar desamparado no samsara continuará. Por outro lado, se tudo o que fazemos, dizemos e pensamos é transformado pela Bodhicitta, a felicidade continuará sempre a aumentar e nunca se esgotara. O fruto das acções motivadas pela Bodhicitta, ao contrário do fruto das acções positivas feitas com uma motivação menos nobre, nunca pode ser destruído pela cólera ou por outras emoções negativas.
Portanto, o que quer que façamos, de corpo, palavra ou espírito, o espírito é sempre o mais importante. É por isso que os ensinamentos budistas se concentram no aperfeiçoar do espírito. O espírito é como um rei, o corpo e a palavra são como servos que devem se curvar à sua vontade. É o espírito que concebe a fé e é o espírito que concebe a dúvida; é o espírito que concebe o amor e é o espírito que concebe o ódio.
Por essa razão devem interiorizar o olhar e verificar a vossa motivação, uma vez que é ela que determina o carácter positivo ou negativo do que estão a fazer. O espírito é como um cristal transparente que toma a cor de qualquer roupa que traga vestido – amarelo numa roupa amarela, azul numa roupa azul e por aí adiante. Da mesma maneira a vossa atitude colora o espírito e isso determina o verdadeiro carácter das vossas acções, seja qual for a aparência que tomem. A natureza deste espírito não é algo de remoto e impossível de conhecer, ela está sempre imediatamente presente. No entanto se quiserem ver como ela é, não encontram nada que seja vermelho, amarelo, azul, branco ou verde; não é quadrado nem redondo, não tem forma de pássaro nem de macaco, nem de coisa alguma. O espírito é simplesmente o que concebe e lembra pensamentos inumeráveis. Se a corrente de pensamentos é virtuosa, domaram o espírito; se negativa não o dominaram.
Amestrar o espírito exige perseverança. Nunca pensem: “O Buda é completamente Iluminado, Chenrezig é a própria encarnação da compaixão; mas uma pessoa vulgar como eu, como poderia ser capaz de ajudar os seres?”..não se desencorajem. À medida que a vossa motivação vai crescendo cada vez mais vasta, também a vossa capacidade para agir positivamente vai aumentar. Talvez neste preciso momento não tenham a mesma habilidade de Chenrezig, mas a maneira de a desenvolver é praticando o Dharma. Se mantiverem a aspiração constante de beneficiarem os outros, o poder para realmente o fazer virá de si mesmo, tão naturalmente como o correr da água num ribeiro