segunda-feira, 2 de maio de 2011

Palavras do meu Precioso Mestre

Talvez pensemos que alguns dos nossos inimigos nos são hostis de modo permanente, que foram nossos inimigos durante muitas gerações e que no futuro continuarão a sê-lo. No entanto não é de todo assim que as coisas se passam.
Assim que ignoramos tudo o que fomos ou aonde vivemos nas nossas vidas anteriores, não podemos ter a certeza de que as pessoas hostis que hoje combatemos não tenham sido nossos pais em vidas anteriores! Quando morrermos não sabemos onde vamos renascer, nem se os inimigos de hoje serão os nossos pais de amanhã. Hoje temos muita confiança nos nossos pais e gostamos deles, mas após esta vida, quem sabe se eles não irão renascer entre os nossos inimigos? Como as nossas vidas passadas e futuras nos são desconhecidas, temos a impressão que os nossos inimigos nos vão ser sempre hostis e os nossos amigos sempre afectuosos. Isso mostra que nunca reflectimos realmente sobre esta questão. A realidade é muito diferente!
Para reflectirmos mais profundamente neste assunto, podemos imaginar, por exemplo, uma situação onde muitas pessoas trabalham num mesmo projecto. Num dado momento todos são amigos, sentem-se unidos e confiantes e cada um faz o que deve. Mas um dia pode acontecer uma coisa qualquer que os volte uns contra os outros, ao ponto de se matarem entre si. Mudanças deste tipo são frequentes e podem verificar-se várias vezes numa só vida, pela simples razão de que todas as coisas compostas são impermanentes.
Apesar deste precioso corpo humano ser um instrumento supremo para se atingir a Iluminação, ele não deixa de ser um fenómeno transitório. Ninguém sabe como ou quando vai morrer. Há bolhas que se formam à superfície da água, para logo de seguida desaparecerem, é-lhes impossível permanecerem. O mesmo acontece com o precioso corpo humano que conseguimos obter. Vamos sempre adiando o momento de começarmos a praticar, mas quem pode saber, muito simplesmente, quando irá esta vida acabar? Ora, uma vez perdido este precioso corpo humano, o nosso fluxo mental continua a existir e pode renascer entre os animais, num dos infernos ou entre os deuses, onde a evolução espiritual é impossível. Mesmo a vida num mundo celeste, com todo o seu conforto e prazer, é uma situação inadequada à prática, devido à constante dissipação e distracção que caracteriza a existência dos deuses.
 Neste momento, segundo a percepção dos nossos sentidos, o universo exterior, com as suas terras, pedras, montanhas, rochedos e falésias, parece permanente e estável como uma casa em betão armado, construída para durar gerações. Mas, na realidade, nada disso é sólido, tudo não passa de um país, onde reinássemos somente pelo tempo de um sonho.
Antigamente, quando o Buda vivia rodeado de uma multidão de Arhats(1) e os ensinamentos floresciam, vejam a quantidade de edifícios que os benfeitores lhes erigiram! Hoje, nesses lugares só existem planícies desertas. É um bom exemplo de impermanência. O mesmo aconteceu às universidades de Vikramashila e Nalanda(2), onde milhares de pânditas instruíam gigantescas assembleias monásticas. Hoje, nem um único monge, nem um único volume dos ensinamentos do Buda se podem lá encontrar. É isso a impermanência!
Tomemos outro exemplo, de um passado mais recente. Antes da chegada dos comunistas chineses, quantos mosteiros existiam no País das Neves - o Tibete? Quantos templos como os de Lhasa, Samye e Trandruk(3), existiam? Quantos objectos preciosos, representações do Corpo, Palavra e Espírito do Buda? Hoje, nem uma simples estátua resta. Tudo o que sobrou de Samye é algo do tamanho desta tenda, pouco maior do que um armazém. Tudo foi saqueado, demolido ou disperso e as grandes estátuas foram destruídas. Tudo isto é verdade, aconteceu e demonstra-nos a impermanência. Pensem em todos os mestres contemporâneos que vieram do Tibete e viveram na índia. Pensem em Gyalwa Karmapa, em Kalu Rinpoché e em Dudjom Rinpoché. Pensem em todos os ensinamentos que eles deram e no modo como eles contribuíram para a preservar a doutrina do Buda…Actualmente, todos eles partiram, já não os podemos ver, eles tornaram-se o objecto das nossas orações e devoções. Tudo isto por causa da impermanência. Tentemos agora pensar nos nossos pais, filhos e amigos…”

-Texto tirado do livro “Compaixão e Iluminação” de Dilgo Khyentse Rinpoché

(1)Arhat: «O que venceu  os inimigos»- o nascimento, a doença, a velhice e a morte - através da prática do Pequeno Veículo. Liberto das emoções e do sofrimento do Samsara, não atingiu ainda a perfeita Iluminação. Não tendo realizado a vacuidade, não lhe é possível dissipar os véus subtis provocados pelo apego à realidade dos fenómenos. Deve ainda ultrapassar o limiar do Grande Veículo para continuar a progredir até atingir o estado de Buda.
(2)Vikramashila e Nalanda: as universidades budistas mais célebres da Índia antiga.
(3)Lhasa, Samye, Trandruk: três lugares particularmente sagradas do Tibete




domingo, 1 de maio de 2011

Buda

      Um Buda para se ter tornado num Buda, já teve que vivenciar inúmeras aprendizagens, ao longo de inúmeros patamares, ao longo de inúmeras vidas e, no momento certo, em que a consciência dele já estava aberta, ou seja, já estava preparada, tudo se congregou no Universo, tudo conspirou no Universo para que ele próprio assumisse essa consciência convictamente, ou seja, a aceitação de uma consciência que vibra de dentro para fora. Ele é o nada e o tudo ao mesmo tempo, ele é vacuidade. Nele está inscrito a sabedoria de muitas vidas, de muitas aprendizagens e por isso, um Buda, é um ser que aceita tudo o que a vida tem, por mais impensável, doloroso ou mais belo que possa ser… porque ele tem em Si a plena consciência e a plena compreensão da vida. Um Buda, compreenderá, em consciência, os motivos que estão na base de um ser que mutila e cria sofrimento em outros seres, da mesma forma que compreenderá, em consciência plena, a beleza de uma ínfima gota de água nas pétalas de uma flor.



sexta-feira, 29 de abril de 2011

Conselhos de Atisha

Certa vez, o Venerável Atisha* foi questionado pelos seus discípulos: Qual é o ensinamento mais elevado do caminho? Atisha respondeu:

A mais alta habilidade é a realização do estado sem ego.
A mais elevada nobreza está em subjugar a sua própria mente.
A mais elevada excelência está em ter uma mente que procure ajudar os outros.
O mais elevado preceito é a contínua vigilância e plena atenção serena.
O mais elevado remédio está em compreender a ausência de realidade de todas as coisas.
A mais elevada actividade está em não se conformar com preocupações mundanas.
A mais elevada realização é a diminuição e transmutação das paixões.                                                                                                            A mais elevada generosidade se encontra no desapego.
A mais elevada disciplina é uma mente pacífica.
A mais elevada paciência é a humildade.
A mais elevada persistência é abandonar o apego a todo fazer.
A mais elevada meditação é uma mente sem pretensões ou inclinações.
A mais elevada sabedoria é não se agarrar a algo assim que aparecer.


Ao deixar a província ocidental de Nari, Atisha deu o seguinte aconselhamento aos seus discípulos reunidos:

Amigos, até que tenham obtido iluminação, o Professor Espiritual é necessário; logo, apoiem-se no Sagrado Professor Espiritual. Até que tenham realizado completamente a natureza da vacuidade, vocês devem ouvir o ensinamento; logo, ouçam atentamente o preceito do Professor. Meramente saber o Dharma não é suficiente para se tornarem iluminados; vocês devem praticar constantemente. Vão para longe de qualquer lugar que seja danoso à prática; permaneçam sempre num local que seja condutor da virtude. O alarido é danoso até que obtenham uma mente firme; logo, fiquem num local isolado. Abandonem os amigos que fortalecem os grilhões das suas paixões; apoiem-se nos amigos que façam aumentar a virtude. Mantenham isso em mente. Nunca haverá um fim nas coisas a fazer, portanto, limitem suas actividades. Dediquem sua virtude dia e noite e estejam sempre serenamente alertas.
Uma vez que tenham obtido o preceito do Professor Espiritual, vocês deveriam sempre meditar no ensinamento e agir em harmonia com o ensinamento do Professor. Quando fizerem isso com grande humildade, os efeitos se manifestarão sem atraso. Se agirem de acordo com o Dharma a partir das profundezas do seu coração, tanto a comida quanto os itens necessários virão naturalmente.
Amigos, não há satisfação nas coisas que vocês desejam. É como beber água do mar para satisfazer a sede. Logo, estejam contentes. Aniquilem todas as formas de pretensão e ambição, orgulho e conceito; subjuguem-se e sejam pacíficos. Abandonem tudo que alguns chamam de "virtude", mas que na verdade são um obstáculo à prática do Dharma. Como se fossem pedras num estreito caminho escorregadio, vocês devem limpar todas as ideias de ganho e respeito, pois elas são a armadilha do demónio. Como ranho no nariz, assoem todos os pensamentos de fama e exaltação, pois eles servem apenas para iludir e enganar.
Já que a felicidade, o prazer e os amigos que vocês têm acumulado, duram apenas um momento, virem as costas para eles. A vida futura não é mais longa do que esta vida, portanto cuidadosamente zelem seu tesouro de virtude para se proverem no futuro. Vocês deixarão tudo para trás quando morrerem; não se apeguem a nada.
Deixem para trás o ato de desanimar e depreciar os outros e gerem uma mente compassiva por aqueles que são seus inferiores. Não tenham apego profundo por seus amigos e não discriminem seus inimigos. Sem serem invejosos ou cobiçosos das boas qualidades dos demais, com humildade desenvolvam estas qualidades vocês mesmos. Não se incomodem examinando as falhas dos demais, mas examinem as suas próprias. Purguem-se delas como sangue ruim. Tampouco se devem concentrar nas suas próprias virtudes; ao invés, respeitem-nas como um servo faria. Estendam amor e gentileza a todos os seres como se eles fossem seus próprios filhos.
Sempre tenham um rosto sorridente e uma mente amável. Falem honestamente e sem raiva. Se saírem dizendo muitas coisas sem sentido, vocês cometerão erros; assim, falem com moderação. Se fizerem muitas coisas sem sentido, seu trabalho virtuoso cessará; abandone as acções que não sejam espirituais. É inútil esforçar-se com trabalho inessencial. Já que qualquer coisa que aconteça com vocês vem como resultado de seu karma passado, os resultados nunca coincidirão com seus desejos presentes. Logo, fiquem calmos.
Oh… é bem melhor morrer do que causar a vergonha de uma pessoa santa; logo, vocês devem sempre ser francos e sem falsidade. Toda a miséria e felicidade desta vida surge do karma desta e de vidas passadas; não culpem os outros por suas próprias circunstâncias.
Até que vocês se subjuguem, vocês não podem subjugar outros; logo, primeiro subjuguem-se a si mesmos. Vocês não têm capacidade para amadurecer os demais sem clarividência; façam um grande esforço para atingir a clarividência.
Vocês certamente morrerão, deixando para trás qualquer riqueza que tenham acumulado; logo, tenham cuidado para não reunirem aviltamento devido à fortuna. Já que prazeres que distraem não têm substância, adornem-se com a virtude da doação. Sempre mantenham disciplina ética pura, pois ela é bonita nesta vida e assegura felicidade em vidas futuras. Nesta era da Kaliyuga, na qual o ódio é desenfreado, assumam a armadura da paciência, que anula a raiva. Permanecemos no mundo pelo poder da preguiça e indolência; assim, devemos atear fogo como que num incêndio ao nos esforçarmos pelo atingimento. Momento após momento, suas vidas são desperdiçadas quando atraídas pela isca, pelo engodo das actividades mundanas; é tempo de meditar. Por estarem sob a influência de visões erróneas, vocês não percebem a natureza da vacuidade. Zelosamente busquem o significado da realidade!
Amigos, o samsara é um vasto pântano no qual não há felicidade verdadeira; corram para o local da liberação. Meditem de acordo ao preceito do Professor e sequem o rio da miséria samsárica. Tenham sempre isso em mente. Ouçam bem esse conselho, que não é feito de meras palavras, mas que vem directo de meu coração. Se seguirem esses preceitos, não farão feliz apenas a mim, mas a vocês mesmos e a todos os outros da mesma forma. Embora eu seja um ignorante, eu lhes instigo a lembrarem dessas palavras.


Numa outra vez, Atisha afirmou:

Esta era negra não é o tempo para demonstrar sua habilidade; é o tempo de perseverar através do apuro. Não é o tempo de ter uma posição elevada, mas tempo de ser humilde. Não é tempo de se apoiar em muitos atendentes, mas tempo de se apoiar na solidão. Tampouco é tempo de subjugar discípulos; é tempo de subjugar-se. Não é tempo de meramente ouvir palavras, mas tempo de contemplar seu significado. Não é tempo de visitar aqui ou acolá; é tempo de permanecer só.


Quando o venerável Atisha estava em Yerpadrak, perto de Lhasa, ele deu o seguinte preceito:

Nobre filhos, reflictam profundamente nestas palavras. Na era negra, as vidas são curtas e há muito a ser compreendido. A duração da vida é incerta; vocês não sabem por quanto tempo viverão. Assim, vocês devem fazer grandes esforços agora, para preencher vossos desejos correctos.
Não se proclamem monges se vocês obtêm as necessidades da vida à maneira de um leigo. Embora vivam num mosteiro e tenham abandonado as actividades mundanas, se vocês se agitam pelo que abandonaram, não têm direito de proclamar, "Sou um monge vivendo num mosteiro". Se suas mentes ainda persistem em desejos por coisas agradáveis e ainda produzem pensamentos danosos, não proclame, "Sou um monge vivendo num mosteiro". Se ainda se rodeiam com pessoas mundanas e desperdiçam tempo em conversas mundanas e sem sentido com aqueles com quem vivem, ainda que estejam vivendo num mosteiro, não proclamem, "Sou um monge vivendo num mosteiro". Se são impacientes e saem-se sentindo menosprezados, se não conseguem ser ao menos um bocadinho de auxílio aos outros, não proclamem, "Sou um monge bodhisattva".
Se falam assim com pessoas mundanas, vocês são grandes mentirosos. Vocês podem-se safar ao dizer tais coisas. Contudo, não podem enganar aqueles que têm a vasta e ilimitada visão da clarividência, nem podem enganar aqueles que têm o olho dhármico da grande omnisciência. Nem se podem enganar a si mesmos, pois os efeitos do karma os seguem.
Para permanecerem num mosteiro, é necessário abandonar os modos mundanos e o apego aos amigos e parentes. Ao renunciarem a suas companhias, estão se livrando de todas as causas conexas de apego e nostalgia. Daí em diante, vocês devem procurar a preciosa bodhichitta. Nem mesmo por um instante devem permitir que surja a obsessão passada com assuntos mundanos. Primeiramente, vocês não praticaram adequadamente o Dharma e, sob a influência de hábitos passados que minaram suas forças, vocês continuamente produziram os conceitos de uma pessoa mundana. Como tais conceitos são predominantes, a menos que façam uso de fortes antídotos a eles, é inútil permanecer num mosteiro. Vocês seriam como os pássaros e animais selvagens que lá vivem.
Em resumo, ficar num mosteiro não será de auxílio se vocês não reverterem a obsessão por coisas afáveis e não renunciarem às actividades desta vida. Pois se não cortarem essas inclinações, ao pensarem que podem trabalhar pelos objectivos tanto dessa como de vidas futuras, vocês não realizarão qualquer coisa, a não ser práticas religiosas acidentais. Esse tipo de prática não é qualquer coisa a não ser prática hipócrita e pretensiosa feita por ganho egoísta.
Conseguinte, vocês devem sempre procurar amigos espirituais e se afastar de má companhia. Não se tornem radicados em um local nem acumulem muitas coisas. O que quer que façam, façam-no em harmonia com o Dharma. Deixem que qualquer coisa que façam seja um remédio para os grilhões das paixões. Essa é a verdadeira prática religiosa; façam grande esforço para isso. Conforme seu saber aumentar, não sejam possuídos pelo demónio do orgulho.
Ao permanecerem num local isolado, subjuguem-se. Tenham poucos desejos e estejam contentes. Não se deleitem em seu próprio conhecimento, nem procurem as falhas dos outros. Não sejam covardes ou ansiosos. Sejam de boa vontade e sem preconceitos. Concentrem-se no Dharma ao se distraírem pelas coisas erradas.
Sejam humildes e, se forem derrotados, aceitem isso graciosamente. Abandonem a ostentação; renunciem ao desejo. Sempre gerem uma mente compassiva. O que quer façam, façam-no moderadamente. Sejam facilmente contentáveis e facilmente sustentáveis. Corram como um animal selvagem do que quer que possa aprisioná-los.
Se não renunciarem à existência mundana, não digam que vocês são sagrados. Se não renunciarem à terra e à agricultura, não digam que adestraram a Sangha. Se não renunciarem ao desejo, não digam que são monges. Se não tiverem amor e compaixão, não digam que são bodhisattvas. Se não renunciarem ao fazer, não digam que são grandes meditadores. Não estimem seus desejos.
Em resumo, quando estiverem num mosteiro, engajem-se em poucas actividades e apenas meditem no Dharma. Não tenham causa para arrependimentos no momento da morte.


*Atisha foi um grande erudito e mestre de meditação indiano, abade do monastério budista Vikramashila na época em que o budismo mahayana florescia na Índia. Quando foi para o Tibete, ajudou a restabelecer o budismo mahayana.O Mestre viveu entre 982 e 1054 e a sua linhagem ficou conhecida como Kadampa.



sexta-feira, 22 de abril de 2011

O PRECIOSO NASCIMENTO HUMANO

           
        O nosso corpo pode ser comparado a um barco e a nossa mente, ao seu capitão. Se os utilizarmos bem, poderemos cruzar as traiçoeiras correntes da existência cíclica até às margens da verdade absoluta. Obter essa excelente oportunidade e não fazer uso dela, representa um enorme desperdício, como se tivéssemos viajado para uma ilha de jóias que realiza desejos, e não tivéssemos trazido nenhuma de volta connosco. Que arrependimento sentiríamos! Tal renascimento representa o culminar de uma grande virtude e fervente aspiração de seguir na prática espiritual. Isso não significa que não hajam dificuldades e frustrações. Temos que suportar o nascimento, a doença, a velhice e a morte e, muitas vezes, não podemos obter o que queremos, ou evitar o que não queremos ou manter o que temos. Contudo, usufruímos de dezoito liberdades e condições favoráveis, resumidas no termo tibetano dal djor; dal aludindo ao facto de estarmos livres das oito condições desfavoráveis, e djor, de sermos dotados de dez condições favoráveis.
Sermos dotados das oito liberdades significa que estamos livres das circunstâncias que tornam a conexão com o Dharma quase impossível. Elas incluem o facto de estarmos livres do renascimento:
·         Como um ser dos infernos, ou um ser nascido nos reinos dos espíritos ávidos , ou animal, o que implica um insuportável sofrimento;
·         Entre os deuses de longa vida, que nos seduz com irresistíveis prazeres dos sentidos (nos reinos inferiores dos deuses) e estados agradáveis de consciência (nos reinos superiores dos deuses);
·         Numa cultura perniciosa, que admite a violência e o mal e nos exclui do contacto com o Dharma sagrado;
·         Com visões erróneas, que nos faz depreciar o que é sagrado e benéfico e apreciar o que é prejudicial;
·         Numa era obscura, na qual nenhum Buda se tenha manifestado, privando-nos de um caminho espiritual; e, finalmente,
·         Com deficiências físicas ou mentais tão severas, que nos impossibilitassem de ouvir ou compreender os ensinamentos.
As dez condições favoráveis dividem-se em duas categorias. A primeira inclui condições que correspondem à situação particular da pessoa: ter nascido como ser humano, morar num lugar onde o Dharma pode ser encontrado, ter todas as faculdades em pleno funcionamento, não ter cometido crimes infames (como ferir um Buda, matar o pai ou mãe, ou causar uma forte cisão na sangha), e ter confiança na doutrina moral do Buda como a fundação de todas as qualidades positivas. A segunda categoria inclui condições que definem o contexto geral no qual o desenvolvimento espiritual ocorre: o surgimento de um Buda no mundo, o ensinamento da doutrina, a qualidade de duração da doutrina, a oportunidade de praticar os ensinamentos e a presença de professores, cuja compaixão altruísta e amor sustentem o empenho espiritual da pessoa.
A extrema dificuldade de se encontrar um renascimento plenamente dotado de todas as liberdades e condições favoráveis no reino humano é ilustrada por determinadas metáforas. Por exemplo, diz-se que o número de seres dos infernos comparado ao de seres humanos é como o número de partículas de poeira nessa terra, comparado ao de partículas de poeira sob a unha de um dedo. O número de seres humanos indiferentes à espiritualidade comparado ao daqueles que a procuram, é como a multiplicidade de estrelas que podem ser vistas à noite, comparada àquelas que são vistas durante o dia, e entre os que procuram o caminho espiritual, aqueles que o praticam com seriedade são ainda muito mais raros.
Outra forma de pensar sobre a dificuldade de se encontrar um renascimento humano, envolve a imagem de todo o universo como sendo um vasto oceano. Na superfície desse oceano, há uma bóia que flutua em função dos ventos e correntes e, nas profundezas desse oceano, nada uma tartaruga cega que sobe à superfície uma vez por século. As hipóteses de se encontrar um renascimento humano, são iguais às probabilidades que a tartaruga cega tem, que sobe à superfície a cada cem anos, de encaixar a sua cabeça no centro dessa bóia que flutua no oceano universal.
Os ocidentais, frequentemente, acreditam que uma pessoa renasce como ser humano vez após vez, e tendem a considerar suas vidas passadas como uma série de aventuras fascinantes que estão além da memória. No entanto, na verdade, todos tivemos uma interminável variedade de renascimentos desde o primórdio sem princípio da existência, cada qual, com um exacto reflexo do nosso karma e muito poucos deles como seres humanos.
O nosso corpo é uma entidade composta, que se desintegra em pó com a morte. A mente é insubstancial, mas tem uma poderosa continuidade. Tanto a sua natureza imutável quanto as suas tendências kármicas, continuam através dos ciclos de morte e renascimento. Temos somente que inspeccionar os pensamentos que nos vêm à mente, para constatar que só uma pequena fracção deles, é do tipo que gera um karma afortunado o suficiente para obtermos um nascimento humano plenamente dotado. A maioria dos pensamentos, está maculado pelo apego e pela aversão. Até os pensamentos subtilmente envenenados podem impedir um renascimento auspicioso, mas os piores pensamentos, repletos de violenta raiva, podem impelir-nos a um renascimento nos infernos.
Patrul Rinpoche compreendeu claramente a subtil conexão entre pensamentos, karma e renascimento. Teve uma vida simples e ascética, frequentemente viajando, sem nunca levar muitas coisas consigo, ouvindo ensinamentos de muitos lamas. Algumas vezes, esses lamas não faziam ideia que o humilde monge, que ouvia os seus discursos com tanta intenção, era o renomado escolástico Patrul Rinpoche, pois ele não dizia o seu nome, nem demonstrava o seu status com um dos mais reverenciados Lamas da sua geração.
Um dia ele parou numa campina. Enquanto descansava, desfrutando o céu azul e o tapete de flores que cobria a terra, pensou: "Que lindo!"… e logo a seguir acrescentou: "Que eu não renasça aqui!" Mais tarde explicou que o apego à beleza do lugar poderia levar a um renascimento ali, possivelmente como um animal, talvez até como um insecto, já que ali não havia habitantes humanos.
Se contemplarmos profundamente a preciosidade do nascimento humano, nos inspiraremos a fazer bom uso dele com o seu insuperável potencial para a iluminação. Tomá-lo como certo causará um pesar incomensurável. No tempo que nos resta, devemos treinar a nossa mente e vencer os pensamentos indomáveis, antes que se proliferem nas incontáveis formas do samsara.
                                                                                                                                    
Práticas Preliminares do Budismo Vajrayana: Instruções para o Dudjom Tersar Ngöndro
Compiladas dos ensinamentos de Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche por Chagdud Khadro
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sábado, 9 de abril de 2011

Extractos do Tesouro do Coração dos Iluminados

Por Sua Santidade Khyentse Rinpoché
Na grande vastidão do Universo, cada um e todos os inumeráveis seres sensíveis, desde o mais pequeno insecto, querem ser felizes e ninguém quer sofrer. Mas, nenhum deles compreende, na sua busca da felicidade, que ela unicamente provém das acções positivas; e ninguém consegue ver, no seu esforço para escapar ao sofrimento, que o que trás o sofrimento são as acções negativas. Por isso involuntariamente, viram as costas à felicidade e mergulham de cabeça no sofrimento.
Esperar a felicidade sem prescindir dum agir negativo é como meter a mão num fogo e esperar não se queimar. Claro que realmente ninguém quer sofrer, ficar doente, ter frio ou fome - mas enquanto continuarmos indulgentes com um agir incorrecto nunca poremos um termo ao sofrer. Da mesma maneira, nunca encontraremos a felicidade senão através de acções, palavras e pensamentos positivos. A acção positiva é algo que temos de cultivar por nós; não se consegue comprar ou roubar e ninguém vai tropeçar nela por acaso.
Tudo o que fazemos envolve o uso do corpo, da palavra e do espírito. Destes três, o corpo e a palavra por si sós são incapazes de iniciar qualquer actividade; é o espírito que determina tudo aquilo que dizemos e fazemos. O espírito, se o deixarmos de rédea solta, apenas continuara a originar cada vez mais acções negativas, e é assim que nos encontramos todos a vaguear no Samsara desde há vidas inumeráveis.
Em cada uma dessas inumeráveis vidas no samsara sem princípio, tivemos de ter pais. Na verdade, nascemos tantas vezes, que num ou noutro tempo, todos e cada um dos seres sensíveis foram com certeza nossos pais ou mães. Quando pensamos em todos esses seres que foram nossos pais há tanto tempo errando desamparados no Samsara, como cegos que perderam o caminho, não podemos deixar de sentir uma tremenda compaixão por eles.
No entanto, a compaixão por si só não é suficiente; eles precisam de uma ajuda efectiva. Mas enquanto o nosso espírito permanecer limitado pelo apego, dar-lhes somente comida, roupas, dinheiro ou simplesmente afeição, apenas lhes trará na melhor das hipóteses uma alegria temporária. O que precisamos é de encontrar uma maneira para os libertar completamente do sofrimento. O que só pode ser feito pondo os ensinamentos de Dharma em prática.
Portanto, antes de receberem estes preciosos ensinamentos, devem fazer surgir a motivação adequada, a qual é estudar e praticar não só para o nosso bem mas principalmente para libertar todos os seres do oceano do Samsara e levá-los à iluminação completa. Tal é a vasta e perfeita atitude da Bodhicitta.
A Bodhicitta, que significa “pensamento da iluminação”, tem dois aspectos, um dirigido a todos os seres e um apontado à sabedoria.
O primeiro é compaixão dirigida imparcialmente para todos os seres sensíveis sem discriminar entre os que nos são amigáveis e os que nos são inamistosos. Guardando esta compaixão constantemente em mente, devemos realizar qualquer acto positivo, mesmo a oferenda duma única lamparina ou a recitação dum único mantra, com a aspiração de que possa beneficiar todas as criaturas vivas sem excepção.
No entanto, para realmente poder ajudar todos os seres, não basta sentir compaixão por eles. Uma história frequentemente contada para ilustrar o que se entende por compaixão descreve o sentimento de uma mãe com paralisia nos braços, incapaz de impedir o seu bebé de ser levado pela correnteza dum rio; por muito forte que a sua compaixão possa ter sido, não lhe tornou possível salvar de afogamento o seu filho. O que quer que seja necessário para libertar os seres do sofrimento e levá-los à iluminação, temos realmente de o fazer. Compreendamos que temos a sorte de ter nascido num mundo onde um Buda apareceu e ensinou o Dharma, de termos encontrado um Mestre espiritual e termos recebido as suas instruções. Agora cabe-nos usar esta preciosa vida humana para progredir na via da libertação.
O segundo aspecto do Bodhicitta, o aspecto voltado para a sabedoria, é a realização da vacuidade de modo a alcançar a iluminação em benefício dos outros. Estas duas Bodhicittas - os meios hábeis da compaixão e a sabedoria da vacuidade - nunca devem ser separadas. São como as duas asas de um pássaro, ambas necessárias para que ele voe; não se pode realizar a iluminação somente através da compaixão, nem tão pouco através da realização da vacuidade por si só.
Fazer algo de virtuoso com uma motivação vulgar vai certamente trazer-nos alguma felicidade, mas só temporariamente. Essa felicidade logo se esvai, e o nosso derivar desamparado no samsara continuará. Por outro lado, se tudo o que fazemos, dizemos e pensamos é transformado pela Bodhicitta, a felicidade continuará sempre a aumentar e nunca se esgotara. O fruto das acções motivadas pela Bodhicitta, ao contrário do fruto das acções positivas feitas com uma motivação menos nobre, nunca pode ser destruído pela cólera ou por outras emoções negativas.
Portanto, o que quer que façamos, de corpo, palavra ou espírito, o espírito é sempre o mais importante. É por isso que os ensinamentos budistas se concentram no aperfeiçoar do espírito. O espírito é como um rei, o corpo e a palavra são como servos que devem se curvar à sua vontade. É o espírito que concebe a fé e é o espírito que concebe a dúvida; é o espírito que concebe o amor e é o espírito que concebe o ódio.
Por essa razão devem interiorizar o olhar e verificar a vossa motivação, uma vez que é ela que determina o carácter positivo ou negativo do que estão a fazer. O espírito é como um cristal transparente que toma a cor de qualquer roupa que traga vestido – amarelo numa roupa amarela, azul numa roupa azul e por aí adiante. Da mesma maneira a vossa atitude colora o espírito e isso determina o verdadeiro carácter das vossas acções, seja qual for a aparência que tomem. A natureza deste espírito não é algo de remoto e impossível de conhecer, ela está sempre imediatamente presente. No entanto se quiserem ver como ela é, não encontram nada que seja vermelho, amarelo, azul, branco ou verde; não é quadrado nem redondo, não tem forma de pássaro nem de macaco, nem de coisa alguma. O espírito é simplesmente o que concebe e lembra pensamentos inumeráveis. Se a corrente de pensamentos é virtuosa, domaram o espírito; se negativa não o dominaram.
Amestrar o espírito exige perseverança. Nunca pensem: “O Buda é completamente Iluminado, Chenrezig é a própria encarnação da compaixão; mas uma pessoa vulgar como eu, como poderia ser capaz de ajudar os seres?”..não se desencorajem. À medida que a vossa motivação vai crescendo cada vez mais vasta, também a vossa capacidade para agir positivamente vai aumentar. Talvez neste preciso momento não tenham a mesma habilidade de Chenrezig, mas a maneira de a desenvolver é praticando o Dharma. Se mantiverem a aspiração constante de beneficiarem os outros, o poder para realmente o fazer virá de si mesmo, tão naturalmente como o correr da água num ribeiro







terça-feira, 22 de março de 2011

Nossa verdadeira natureza

Em geral, quando falamos de espírito não sabemos muito bem do que estamos a falar. Devido à sua perspectiva materialista, a cultura ocidental considera que a consciência depende do funcionamento do cérebro e que a actividade cerebral e consciência são dois nomes para a mesma coisa. Para o budismo não é assim. Dilgo Khyentse Rinpoché (1) diz: “aquilo a que habitualmente chamamos de espírito é o espírito iludido; é um turbilhão de pensamentos atiçados pelo desejo, pela aversão e pela ignorância. Esse espírito, ao contrário da consciência iluminada, que é a nossa verdadeira natureza, anda sempre enganado”.
Para o Budismo, o objectivo do Dharma (2) é o reconhecimento dos níveis mais profundos do espírito para podermos atingir a libertação definitiva da ilusão. A Natureza Verdadeira da mente é pura como a água cristalina de uma nascente da montanha. Independentemente da sujidade que essa água possa vir a ganhar ao longo do seu percurso pela montanha, a natureza da água permanece sempre pura. Isto é uma analogia que mostra o que se passa connosco; o que dá início à sujidade da água pura da montanha é, por analogia, a ignorância. Ou seja, uma vez surgida a ignorância face à nossa verdadeira natureza, mergulhamos naquilo a que se chama dualidade, a separação do espaço-tempo. Uma vez surgida a ignorância surge o pensamento. Este cria o conceito ilusório do “eu”, deste agregado a que nós chamamos de ego, e ao qual tanto nos agarramos, ao qual tanto nos identificamos e apegamos como algo de intrinsecamente real, de sólido, de tangível. Este “eu” uma vez surgido, é um conceito fabricado pelo espírito que está iludido, que está obscurecido e não é o espírito na sua verdadeira natureza. O espírito que pensa “eu”, é totalmente desprovido da existência e de carácter substancial. No entanto, assim que surge o conceito do “eu” apegamo-nos a ele como algo de sólido, de real e é a partir daí que o corpo vem à existência com os seus 5 sentidos e 8 consciências. A partir da ignorância, o mundo, ou nos atrai ou nos repela, ou seja, ou somos muito atraídos pelas coisas ou as repelimos – nasce assim o desejo e a aversão. Assim, ambos procedem da ignorância de não vermos o mundo tal como ele é. Como ambos procedem da ignorância, diz-se que esta é a causa-raiz da ilusão, o veneno base.
Os três venenos chamam-se Kleshas; uma vez surgidos estes três venenos - a ignorância, o apego e a aversão - nascem as emoções perturbadoras. Por exemplo, se somos fortemente atraídos por algo, tal se transformará em desejo-apego, o que atrairá a inveja, o orgulho e por ai fora. Assim, os três Kleshas principais encadeiam, irremediavelmente, as emoções perturbadoras que são, afinal, um véu. O véu de emoções perturbadoras impede-nos de ver a natureza do nosso próprio espírito e alimenta aquilo que se chama espírito iludido. De tal modo nos distrai que continuamos, vida após vida, submetidos aos elementos que nos impedem de ver a vida tal como ela é. Uma vez surgidas estas emoções, elas impelem-nos ao movimento. Surge assim o Karma. Os movimentos ou acções podem ser realizados por três portas: a do corpo, a da palavra e a do espírito. Uma vez realizadas estas acções, elas provocam, irremediavelmente, uma consequência; para as acções ditas brancas, as consequências serão, frequentemente, mas nem sempre brancas e, para as acções negras, as consequências serão igualmente quase sempre negras. Devido a estes actos surgidos da ignorância face à nossa natureza real, mergulhamos no Samsara – o ciclo vicioso das existências. As acções produzem consequências e quando estas se manifestam sob a forma de experiências e de acontecimentos, reagimos a elas, acumulando mais Karma. Do Karma surgem as 6 classes de seres que vivem nos 6 mundos, com toda a variedade de alegrias e de penas. Karma significa “acção” e refere-se às nossas acções de corpo, palavra e mente. Toda a acção deixa uma marca ou potencialidade na nossa mente muito subtil e cada uma dessas marcas dá origem à sua própria reacção, ao seu próprio efeito.
A nossa mente é como um campo de cultivo e realizar acções é como plantar sementes no campo. Acções positivas semeiam felicidade futura, acções negativas semeiam sofrimento futuro. As sementes que plantamos no passado permanecem em estado dormente até que as condições necessárias para que elas germinem se reúnam. Em alguns casos, isso acontece só ao fim de várias vidas depois da acção original ter sido cometida. O sofrimento é criado pelos nossos próprias acções ou Karma; não nos é dado como punição. Sofremos porque, nas vidas anteriores, cometemos muitas acções não virtuosas. A fonte de todas essas acções negativas, são as nossas próprias ilusões, nascidas da ignorância, enfim, nascidas do apego ao ego. Uma vez que tenhamos purificado a nossa mente das ilusões, as nossas acções serão naturalmente puras. Como resultado todas as nossas experiências serão naturalmente puras.

(1) Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche Tashi Paljor foi um dos maiores Mestres detentor de linhagem, escritor, professor e transmissor dos ensinamentos e poderes dos tantras Nyingma em geral e do Longchen Nyingthig em particular, que alcançou numerosos discípulos no Tibet, na Índia, no Nepal, no Butão e no Ocidente.
(2) Os ensinamentos de Buda e as realizações interiores alcançadas na dependência de praticá-los.

                                                                 

domingo, 13 de março de 2011

Mantra do Mestre de Diamante



Padmasambhava, que quer dizer “Nascido do Lótus”, conhecido por vários nomes, entre eles Guru Rinpoche (Precioso Mestre), foi o fundador do Budismo Tibetano. O seu mantra Om Ah Hum Vajra Guru Padma Siddhi Hum (em sânscrito) é um dos mais conhecidos e poderosos no Budismo Tibetano. E se diz que este mantra contém a essência de todos os Budas (do passado, presente e futuro).
 O diálogo que se segue é uma tradução livre de certas passagens de um texto escrito no século VIII e relata uma conversa entre Padmasambhava e a dakini Yeshe Tsogyal, sua principal discípula tibetana.
Após ter apresentado a Guru Rinpoché as oferendas exteriores, interiores e secretas, Yeshe Tsogyal fez-lhe o seguinte pedido:
«Oh Mestre Venerado, para o meu bem e para o bem dos seres a vir, considerai este meu pedido. O fato de vos ter encontrado é para mim e para as pessoas do meu tempo um bem inestimável. Nos tempos vindouros, encontrar-se na presença de um ser como vós será extremamente difícil. Pessoalmente, recebi ensinamentos, conselhos e práticas com abundância e todas as dúvidas me abandonaram. Em contrapartida, vós mesmos haveis previsto dificuldades consideráveis para os homens e mulheres dos tempos futuros: de espírito turbulento, grande dificuldade terão para encontrar e compreender os ensinamentos autênticos. A profusão de visões desgarradas e de ensinamentos falaciosos ensombrarão os seus espíritos, quão difícil lhes será discernir o verdadeiro do falso! Mais ainda, muito renitentes ficarão diante dos verdadeiros ensinamentos. Chegada a época dos desastres, das guerras, das fomes e doenças, os seres irão vaguear de continente em continente, sempre em fuga, como formigas escorraçadas do formigueiro. Haveis dado numerosas indicações sobre a maneira de repelir as calamidades e as idades difíceis; todavia, esses tempos vindos, muitos desejarão voltar-se para o Dharma, mas há-de faltar-lhes o vagar. Quanto aos que exprimirem um real interesse pela prática, difícil lhes será aprofundá-la. A discórdia reinará entre os seres; tanto os seus alimentos como os objectos usuais perderão as qualidades naturais e serão contaminados. Para entravar essas condições nefastas, haveis já invocado o poder dos mantras e do mantra do Mestre de Diamante em particular. Tende a bondade de nos explicar esse mantra e o modo de o utilizar.»
O grande sábio respondeu:
«É verdade, nesses tempos os desastres e as calamidades irão abater-se. Em intenção dos seres que então viverão, escondi tesouros em diferentes sítios do planeta – em rochedos e montanhas, nos rios e também no coração de seres predestinados. Esses tesouros serão extremamente benéficos. Quanto ao mantra do Mestre de Diamante, é também o mantra de todos os seres iluminados. Nos tempos difíceis poderá ser cantado em lugares sagrados ou em lugares solitários, no cimo das montanhas, à beira de rios ou dos oceanos, ou ainda em lugares varridos por catástrofes. Haja um grande praticante, um monge autêntico ou alguém de imensa compaixão que então o recite cem, mil, dez mil, cem mil vezes ou mais, e o resultado será inconcebível. O som do mantra poderá estrangular ou afastar todo o tipo de flagelos, tais como doenças, fomes ou guerras, bem como as consequências do desequilíbrio da Natureza: colheitas más, chuvas torrenciais, inundações ou secas. Este mantra contém em si imensos poderes, que permitem equilibrar os diferentes elementos tanto no plano exterior como interior e secreto. Quem quer que o pratique encontrará o Perfeitamente Iluminado, o Buda, nesta vida, nas vidas futuras ou no estado intermediário, em sonho ou em realidade. Aquele ou aquela que, com uma compaixão autêntica, o recitar regularmente, pelo menos cem vezes por dia, não conhecerá qualquer dificuldade material e verá os seus desejos cumprirem-se pelo poder dessa recitação. Aquele ou aquela que o recitar mil vezes por dia receberá incalculáveis bênçãos, bem como a capacidade de socorrer os demais de modo inconcebível. O praticante que o recitar cem mil vezes ou dez vezes cem mil de modo contínuo, ou seja, todos os dias e sem interrupção, poderá pacificar tudo o que é negativo e adquirirá para si e para os demais o poder de prolongar a vida e aumentar a sabedoria, e poderá dominar os fenômenos e subjugar as forças negativas. O seu poder de ajudar os outros aumentará consideravelmente. Quem quer que faça trinta ou setenta vezes cem mil recitações de maneira contínua, tornar-se-á inseparável dos Budas do passado, do presente e do futuro e receberá conselhos e indicações directamente dos seres iluminados. Todos os seus votos se realizarão. Pelo melhor, obterá no espaço de uma única vida o corpo de arco-íris. A um nível mediano, alcançará a liberdade última no momento da morte. No pior dos casos, durante o bardo, eu, Padmasambhava, virei em pessoa para o guiar na via da completa Iluminação.»
De novo, Yeshe Tsogyal disse: «Mestre, eis uma prática verdadeiramente extraordinária! Tende a bondade de nos explicar o sentido deste mantra, de tal modo que os seres humanos vindouros possam compreendê-lo melhor.»
Padmasambhava deu-lhe então uma resposta extremamente pormenorizada, da qual se seguem alguns extractos:
«Este mantra é a essência de todos os mantras. Através dele podemos explicar todas as ciências e todos os ensinamentos que existem. Ouve com atenção, coloca por escrito o que vou dizer e explica-o então a quem tenha necessidade:
Om corresponde à natureza do corpo, Ah à natureza da palavra e Hung à natureza do espírito de todos os Budas. As cinco palavras Vajra Guru Padma Siddhi Hung referem-se aos cinco aspectos ou ‘famílias’ de Buda: a famí1ia do Diamante (Vajra), da Jóia (Ratna), do Lótus(Padma), do Duplo-Vajra (Karma) e da Roda (Buda). Representam as cinco sabedorias: a sabedoria como o espelho, a sabedoria da equanimidade, a sabedoria que discerne, a sabedoria que tudo realiza e a sabedoria do espaço absoluto.
Quanto ao efeito deste mantra: As três sílabas Om Ah Hung têm o poder de purificar os seres dos três principais venenos, que são a aversão, o apego e a ignorância. As sílabas Vajra Guru Padma Siddhi Hung actuam sobre as emoções de modo mais específico: Vajra pacifica a emoção grosseira da aversão e os obscurecimentos que ela provoca; Guru dissipa os véus grosseiros e subtis do orgulho; Padma suprime os véus e as emoções provenientes do apego; Siddhi aplica-se à inveja e ao ciúme; Hung purifica da ignorância e dos véus subtis que ela implica. Este mantra não trata apenas as desordens emocionais devidas aos cinco venenos, trata também dos seus efeitos sobre o corpo físico: os desequilíbrios que perturbam os órgãos principais. Podemos igualmente dar uma tradução literal deste mantra: Om Ah Hung: o corpo, a palavra e o espírito. Vajra: o diamante indestrutível. Guru: supremo, o mestre. Padma: o lótus. Siddhi: as realizações. Hung: receber, reunir, perfazer.
Este mantra possui um grande poder de protecção contra as forças exteriores susceptíveis de perturbar o espírito e os órgãos vitais. Pode repelir e suprimir todas as formas de violência, caso alguém de imensa compaixão o pratique assiduamente ou numerosas pessoas o recitem em uníssono: Om Ah Hung repele os conflitos armados derivados dos três venenos de um modo geral. De modo mais específico e em relação com os cinco venenos, Vajra repele as guerras causadas pela cólera; Guru as que nascem do orgulho; Padma as devidas ao apego egoísta; Siddhi as que são inspiradas pela inveja e pela cobiça; Hung as que resultam de uma influência exterior súbita, fonte de desequilíbrios (por exemplo, a influência que impele os dirigentes das nações a agir de maneira irresponsável).»


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Desejo

                      
Para solucionar os nossos problemas humanos e encontrar a paz e felicidade duradouras, o Buda deu ensinamentos muito profundos, que devemos tomar como conselhos práticos. Os Seus ensinamentos são conhecidos como Dharma, que significa protecção suprema contra o sofrimento. O Dharma é o método efectivo para solucionar os nossos problemas humanos. Para compreender isso, devemos primeiro analisar a verdadeira natureza dos problemas que enfrentamos e identificar as suas causas.
Os problemas não existem fora da mente. A verdadeira natureza dos nossos problemas são as sensações desagradáveis, e estas fazem parte da nossa mente. Por exemplo, quando o nosso carro apresenta um problema, costumamos dizer: “Eu tenho um problema”. Mas, na realidade, o problema não é nosso, mas sim do carro. Os nossos problemas surgem, somente, quando temos sensações desagradáveis. Os problemas do carro existem fora da mente, ao passo que os nossos problemas estão dentro de nós. Se distinguirmos os problemas animados dos inanimados, compreenderemos que a verdadeira natureza dos nossos problemas são sensações, que, por sua vez, fazem parte da nossa mente.
Todos os nossos problemas, ou seja, as nossas  sensações desagradáveis, provêm das delusões do apego e da ignorância do auto-agarramento. Sendo assim, tais delusões são as causas principais dos nossos problemas. Temos um forte apego para satisfazer os nossos desejos e em nome disso trabalhamos incansavelmente ao longo da vida, experienciando inúmeras dificuldades e problemas. Quando os nossos desejos não são satisfeitos, ficamos infelizes e deprimidos, o que frequentemente nos leva a sentir raiva e a criar mais problemas, tanto para nós como para outros. Podemos compreender isso observando a nossa própria experiência. Quando perdemos os nossos amigos, trabalho, status, reputação, etc., experimentamos dor e muitas dificuldades devido ao forte apego que sentimos por essas coisas. Não fosse pelo apego, não haveria nenhum motivo para sofrer ou ter problema ao perdê-las.
Porque temos um forte apego pelas nossas visões ou opiniões, quando alguém nos contraria, surge imediatamente dentro de nós o problema das sensações desagradáveis. Isso faz-nos sentir raiva e, com raiva, discutimos e entramos em conflito com os outros, criando, assim, mais dificuldades. A maioria dos problemas políticos no mundo é causada por indivíduos que tem um forte apego pelas suas opiniões pessoais. Muitos outros problemas também se originam no apego que as pessoas nutrem pelas suas opiniões religiosas.
Em vidas anteriores, devido ao apego pela satisfação dos nossos desejos, cometemos inúmeras acções que prejudicaram outros seres vivos. Como resultado dessas acções, experienciamos agora numerosos problemas e sofrimentos.
Se nos olharmos no espelho do Darma, veremos porque o nosso apego, raiva e especialmente a ignorância do auto – agarramento são as causas de todos os problemas e sofrimentos que enfrentamos. Dessas três delusões principais surgem todas as outras delusões que são como véus que encobrem a nossa natureza real e que nos impedem de entrar em contacto com a nossa verdadeira essência. Compreenderemos definitivamente, que se não controlarmos essas delusões não poderemos solucionar os nossos problemas humanos. O Darma é o único método de controlar as nossas delusões - o apego, a raiva e a ignorância do auto-agarramento… Os ensinamentos de Buda são o método científico supremo para solucionar os problemas humanos. Se os colocarmos em prática com sinceridade, sem dúvida resolveremos os nossos problemas e encontraremos o verdadeiro sentido da nossa vida.





segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Felicidade e sofrimento são estados mentais


Todos os seres têm o mesmo desejo básico de ser feliz e não sofrer, mas poucos entendem quais são as verdadeiras causas da felicidade e do sofrimento. Costumamos acreditar que as condições exteriores, como a comida, os amigos, carros e dinheiro, são causas reais de felicidade e, assim, dedicamos quase todo o nosso tempo e energia para obtê-las. Superficialmente, parece que nos podem tornar felizes, mas um exame mais cuidado revela que elas também nos trazem muitos sofrimentos e problemas.
Felicidade e sofrimento são opostos. Assim, se algo for uma causa real de felicidade, não poderá ocasionar sofrimento. Se a comida, dinheiro, amigos, etc., forem realmente causas de felicidade, eles jamais poderão ser causas de sofrimento; contudo, sabemos por experiência pessoal que eles frequentemente causam sofrimento. Por exemplo, um dos nossos maiores interesses é a comida, mas a comida que ingerimos também é a causa principal de muitas das nossas indisposições e doenças. Para produzir tudo aquilo que achamos que nos trará felicidade, poluímos a tal ponto o nosso meio ambiente, que hoje o ar que respiramos e a água que bebemos ameaçam a nossa saúde e bem-estar. Amamos a liberdade e a independência que um carro nos proporciona, mas o custo disso em termos de acidentes e destruição ambiental é enorme. Achamos que o dinheiro é essencial para aproveitarmos a vida, mas a corrida pelo dinheiro também acarreta imensos problema e ansiedade. Até os nossos familiares e amigos, com quem desfrutamos de tantos momentos felizes, nos podem causar muita preocupação e tristeza.
Nos últimos tempos, o nosso conhecimento e controle do mundo exterior aumentaram consideravelmente e, como resultado, testemunhamos notáveis progressos materiais; contudo, não houve um aumento correspondente da felicidade humana. Não há menos sofrimento no mundo de hoje nem menos problemas. Na verdade, podemos até dizer que hoje existem mais problemas e que a infelicidade é maior do que nunca. Isso mostra que a solução para os nossos problemas e problemas da nossa sociedade como um todo, não reside no conhecimento e controle do mundo exterior.
Por que é que isso acontece? Felicidade e sofrimento são estados mentais, por isso, as suas principais causas não podem ser encontradas fora da mente. A verdadeira fonte da felicidade é a paz interior. Se a nossa mente estiver em paz, seremos felizes o tempo todo, independentemente das condições exteriores; mas se de alguma maneira ela estiver perturbada ou agitada, não nos sentiremos felizes por melhor que sejam essas condições. As circunstâncias exteriores só nos podem fazer felizes se a nossa mente estiver em paz. Podemos compreender isso por experiência própria. Por exemplo, ainda que estejamos no mais perfeito ambiente e tenhamos tudo o que desejamos, no instante em que ficamos com raiva, a nossa felicidade desaparece. Isso ocorre porque a raiva destrói a nossa paz interior. Vemos assim que se quisermos felicidade verdadeira e duradoura, temos que gerar e manter uma experiência especial de paz interior. A única maneira de fazê-lo é treinando a nossa mente com a prática espiritual, ou seja, reduzindo e eliminando gradualmente os estados mentais negativos e perturbados e substituindo-os por outros positivos e serenos. Aperfeiçoando continuamente a nossa paz interior, alcançaremos por fim a paz interior permanente, ou nirvana. Uma vez que tenhamos alcançado o nirvana, seremos felizes a vida inteira e em todas as nossas vidas. Teremos solucionado, então, todos os nossos problemas e realizado o verdadeiro significado da nossa vida humana.