Em geral, quando falamos de espírito não sabemos muito bem do que estamos a falar. Devido à sua perspectiva materialista, a cultura ocidental considera que a consciência depende do funcionamento do cérebro e que a actividade cerebral e consciência são dois nomes para a mesma coisa. Para o budismo não é assim. Dilgo Khyentse Rinpoché (1) diz: “aquilo a que habitualmente chamamos de espírito é o espírito iludido; é um turbilhão de pensamentos atiçados pelo desejo, pela aversão e pela ignorância. Esse espírito, ao contrário da consciência iluminada, que é a nossa verdadeira natureza, anda sempre enganado”.
Para o Budismo, o objectivo do Dharma (2) é o reconhecimento dos níveis mais profundos do espírito para podermos atingir a libertação definitiva da ilusão. A Natureza Verdadeira da mente é pura como a água cristalina de uma nascente da montanha. Independentemente da sujidade que essa água possa vir a ganhar ao longo do seu percurso pela montanha, a natureza da água permanece sempre pura. Isto é uma analogia que mostra o que se passa connosco; o que dá início à sujidade da água pura da montanha é, por analogia, a ignorância. Ou seja, uma vez surgida a ignorância face à nossa verdadeira natureza, mergulhamos naquilo a que se chama dualidade, a separação do espaço-tempo. Uma vez surgida a ignorância surge o pensamento. Este cria o conceito ilusório do “eu”, deste agregado a que nós chamamos de ego, e ao qual tanto nos agarramos, ao qual tanto nos identificamos e apegamos como algo de intrinsecamente real, de sólido, de tangível. Este “eu” uma vez surgido, é um conceito fabricado pelo espírito que está iludido, que está obscurecido e não é o espírito na sua verdadeira natureza. O espírito que pensa “eu”, é totalmente desprovido da existência e de carácter substancial. No entanto, assim que surge o conceito do “eu” apegamo-nos a ele como algo de sólido, de real e é a partir daí que o corpo vem à existência com os seus 5 sentidos e 8 consciências. A partir da ignorância, o mundo, ou nos atrai ou nos repela, ou seja, ou somos muito atraídos pelas coisas ou as repelimos – nasce assim o desejo e a aversão. Assim, ambos procedem da ignorância de não vermos o mundo tal como ele é. Como ambos procedem da ignorância, diz-se que esta é a causa-raiz da ilusão, o veneno base.
Os três venenos chamam-se Kleshas; uma vez surgidos estes três venenos - a ignorância, o apego e a aversão - nascem as emoções perturbadoras. Por exemplo, se somos fortemente atraídos por algo, tal se transformará em desejo-apego, o que atrairá a inveja, o orgulho e por ai fora. Assim, os três Kleshas principais encadeiam, irremediavelmente, as emoções perturbadoras que são, afinal, um véu. O véu de emoções perturbadoras impede-nos de ver a natureza do nosso próprio espírito e alimenta aquilo que se chama espírito iludido. De tal modo nos distrai que continuamos, vida após vida, submetidos aos elementos que nos impedem de ver a vida tal como ela é. Uma vez surgidas estas emoções, elas impelem-nos ao movimento. Surge assim o Karma. Os movimentos ou acções podem ser realizados por três portas: a do corpo, a da palavra e a do espírito. Uma vez realizadas estas acções, elas provocam, irremediavelmente, uma consequência; para as acções ditas brancas, as consequências serão, frequentemente, mas nem sempre brancas e, para as acções negras, as consequências serão igualmente quase sempre negras. Devido a estes actos surgidos da ignorância face à nossa natureza real, mergulhamos no Samsara – o ciclo vicioso das existências. As acções produzem consequências e quando estas se manifestam sob a forma de experiências e de acontecimentos, reagimos a elas, acumulando mais Karma. Do Karma surgem as 6 classes de seres que vivem nos 6 mundos, com toda a variedade de alegrias e de penas. Karma significa “acção” e refere-se às nossas acções de corpo, palavra e mente. Toda a acção deixa uma marca ou potencialidade na nossa mente muito subtil e cada uma dessas marcas dá origem à sua própria reacção, ao seu próprio efeito.
A nossa mente é como um campo de cultivo e realizar acções é como plantar sementes no campo. Acções positivas semeiam felicidade futura, acções negativas semeiam sofrimento futuro. As sementes que plantamos no passado permanecem em estado dormente até que as condições necessárias para que elas germinem se reúnam. Em alguns casos, isso acontece só ao fim de várias vidas depois da acção original ter sido cometida. O sofrimento é criado pelos nossos próprias acções ou Karma; não nos é dado como punição. Sofremos porque, nas vidas anteriores, cometemos muitas acções não virtuosas. A fonte de todas essas acções negativas, são as nossas próprias ilusões, nascidas da ignorância, enfim, nascidas do apego ao ego. Uma vez que tenhamos purificado a nossa mente das ilusões, as nossas acções serão naturalmente puras. Como resultado todas as nossas experiências serão naturalmente puras.
(1) Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche Tashi Paljor foi um dos maiores Mestres detentor de linhagem, escritor, professor e transmissor dos ensinamentos e poderes dos tantras Nyingma em geral e do Longchen Nyingthig em particular, que alcançou numerosos discípulos no Tibet, na Índia, no Nepal, no Butão e no Ocidente.
(2) Os ensinamentos de Buda e as realizações interiores alcançadas na dependência de praticá-los.

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