“Talvez pensemos que alguns dos nossos inimigos nos são hostis de modo permanente, que foram nossos inimigos durante muitas gerações e que no futuro continuarão a sê-lo. No entanto não é de todo assim que as coisas se passam.
Assim que ignoramos tudo o que fomos ou aonde vivemos nas nossas vidas anteriores, não podemos ter a certeza de que as pessoas hostis que hoje combatemos não tenham sido nossos pais em vidas anteriores! Quando morrermos não sabemos onde vamos renascer, nem se os inimigos de hoje serão os nossos pais de amanhã. Hoje temos muita confiança nos nossos pais e gostamos deles, mas após esta vida, quem sabe se eles não irão renascer entre os nossos inimigos? Como as nossas vidas passadas e futuras nos são desconhecidas, temos a impressão que os nossos inimigos nos vão ser sempre hostis e os nossos amigos sempre afectuosos. Isso mostra que nunca reflectimos realmente sobre esta questão. A realidade é muito diferente!
Para reflectirmos mais profundamente neste assunto, podemos imaginar, por exemplo, uma situação onde muitas pessoas trabalham num mesmo projecto. Num dado momento todos são amigos, sentem-se unidos e confiantes e cada um faz o que deve. Mas um dia pode acontecer uma coisa qualquer que os volte uns contra os outros, ao ponto de se matarem entre si. Mudanças deste tipo são frequentes e podem verificar-se várias vezes numa só vida, pela simples razão de que todas as coisas compostas são impermanentes.
Apesar deste precioso corpo humano ser um instrumento supremo para se atingir a Iluminação, ele não deixa de ser um fenómeno transitório. Ninguém sabe como ou quando vai morrer. Há bolhas que se formam à superfície da água, para logo de seguida desaparecerem, é-lhes impossível permanecerem. O mesmo acontece com o precioso corpo humano que conseguimos obter. Vamos sempre adiando o momento de começarmos a praticar, mas quem pode saber, muito simplesmente, quando irá esta vida acabar? Ora, uma vez perdido este precioso corpo humano, o nosso fluxo mental continua a existir e pode renascer entre os animais, num dos infernos ou entre os deuses, onde a evolução espiritual é impossível. Mesmo a vida num mundo celeste, com todo o seu conforto e prazer, é uma situação inadequada à prática, devido à constante dissipação e distracção que caracteriza a existência dos deuses.
Neste momento, segundo a percepção dos nossos sentidos, o universo exterior, com as suas terras, pedras, montanhas, rochedos e falésias, parece permanente e estável como uma casa em betão armado, construída para durar gerações. Mas, na realidade, nada disso é sólido, tudo não passa de um país, onde reinássemos somente pelo tempo de um sonho.
Antigamente, quando o Buda vivia rodeado de uma multidão de Arhats(1) e os ensinamentos floresciam, vejam a quantidade de edifícios que os benfeitores lhes erigiram! Hoje, nesses lugares só existem planícies desertas. É um bom exemplo de impermanência. O mesmo aconteceu às universidades de Vikramashila e Nalanda(2), onde milhares de pânditas instruíam gigantescas assembleias monásticas. Hoje, nem um único monge, nem um único volume dos ensinamentos do Buda se podem lá encontrar. É isso a impermanência!
Tomemos outro exemplo, de um passado mais recente. Antes da chegada dos comunistas chineses, quantos mosteiros existiam no País das Neves - o Tibete? Quantos templos como os de Lhasa, Samye e Trandruk(3), existiam? Quantos objectos preciosos, representações do Corpo, Palavra e Espírito do Buda? Hoje, nem uma simples estátua resta. Tudo o que sobrou de Samye é algo do tamanho desta tenda, pouco maior do que um armazém. Tudo foi saqueado, demolido ou disperso e as grandes estátuas foram destruídas. Tudo isto é verdade, aconteceu e demonstra-nos a impermanência. Pensem em todos os mestres contemporâneos que vieram do Tibete e viveram na índia. Pensem em Gyalwa Karmapa, em Kalu Rinpoché e em Dudjom Rinpoché. Pensem em todos os ensinamentos que eles deram e no modo como eles contribuíram para a preservar a doutrina do Buda…Actualmente, todos eles partiram, já não os podemos ver, eles tornaram-se o objecto das nossas orações e devoções. Tudo isto por causa da impermanência. Tentemos agora pensar nos nossos pais, filhos e amigos…”
-Texto tirado do livro “Compaixão e Iluminação” de Dilgo Khyentse Rinpoché
(1)Arhat: «O que venceu os inimigos»- o nascimento, a doença, a velhice e a morte - através da prática do Pequeno Veículo. Liberto das emoções e do sofrimento do Samsara, não atingiu ainda a perfeita Iluminação. Não tendo realizado a vacuidade, não lhe é possível dissipar os véus subtis provocados pelo apego à realidade dos fenómenos. Deve ainda ultrapassar o limiar do Grande Veículo para continuar a progredir até atingir o estado de Buda.
(2)Vikramashila e Nalanda: as universidades budistas mais célebres da Índia antiga.
(3)Lhasa, Samye, Trandruk: três lugares particularmente sagradas do Tibete

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