sábado, 9 de abril de 2011

Extractos do Tesouro do Coração dos Iluminados

Por Sua Santidade Khyentse Rinpoché
Na grande vastidão do Universo, cada um e todos os inumeráveis seres sensíveis, desde o mais pequeno insecto, querem ser felizes e ninguém quer sofrer. Mas, nenhum deles compreende, na sua busca da felicidade, que ela unicamente provém das acções positivas; e ninguém consegue ver, no seu esforço para escapar ao sofrimento, que o que trás o sofrimento são as acções negativas. Por isso involuntariamente, viram as costas à felicidade e mergulham de cabeça no sofrimento.
Esperar a felicidade sem prescindir dum agir negativo é como meter a mão num fogo e esperar não se queimar. Claro que realmente ninguém quer sofrer, ficar doente, ter frio ou fome - mas enquanto continuarmos indulgentes com um agir incorrecto nunca poremos um termo ao sofrer. Da mesma maneira, nunca encontraremos a felicidade senão através de acções, palavras e pensamentos positivos. A acção positiva é algo que temos de cultivar por nós; não se consegue comprar ou roubar e ninguém vai tropeçar nela por acaso.
Tudo o que fazemos envolve o uso do corpo, da palavra e do espírito. Destes três, o corpo e a palavra por si sós são incapazes de iniciar qualquer actividade; é o espírito que determina tudo aquilo que dizemos e fazemos. O espírito, se o deixarmos de rédea solta, apenas continuara a originar cada vez mais acções negativas, e é assim que nos encontramos todos a vaguear no Samsara desde há vidas inumeráveis.
Em cada uma dessas inumeráveis vidas no samsara sem princípio, tivemos de ter pais. Na verdade, nascemos tantas vezes, que num ou noutro tempo, todos e cada um dos seres sensíveis foram com certeza nossos pais ou mães. Quando pensamos em todos esses seres que foram nossos pais há tanto tempo errando desamparados no Samsara, como cegos que perderam o caminho, não podemos deixar de sentir uma tremenda compaixão por eles.
No entanto, a compaixão por si só não é suficiente; eles precisam de uma ajuda efectiva. Mas enquanto o nosso espírito permanecer limitado pelo apego, dar-lhes somente comida, roupas, dinheiro ou simplesmente afeição, apenas lhes trará na melhor das hipóteses uma alegria temporária. O que precisamos é de encontrar uma maneira para os libertar completamente do sofrimento. O que só pode ser feito pondo os ensinamentos de Dharma em prática.
Portanto, antes de receberem estes preciosos ensinamentos, devem fazer surgir a motivação adequada, a qual é estudar e praticar não só para o nosso bem mas principalmente para libertar todos os seres do oceano do Samsara e levá-los à iluminação completa. Tal é a vasta e perfeita atitude da Bodhicitta.
A Bodhicitta, que significa “pensamento da iluminação”, tem dois aspectos, um dirigido a todos os seres e um apontado à sabedoria.
O primeiro é compaixão dirigida imparcialmente para todos os seres sensíveis sem discriminar entre os que nos são amigáveis e os que nos são inamistosos. Guardando esta compaixão constantemente em mente, devemos realizar qualquer acto positivo, mesmo a oferenda duma única lamparina ou a recitação dum único mantra, com a aspiração de que possa beneficiar todas as criaturas vivas sem excepção.
No entanto, para realmente poder ajudar todos os seres, não basta sentir compaixão por eles. Uma história frequentemente contada para ilustrar o que se entende por compaixão descreve o sentimento de uma mãe com paralisia nos braços, incapaz de impedir o seu bebé de ser levado pela correnteza dum rio; por muito forte que a sua compaixão possa ter sido, não lhe tornou possível salvar de afogamento o seu filho. O que quer que seja necessário para libertar os seres do sofrimento e levá-los à iluminação, temos realmente de o fazer. Compreendamos que temos a sorte de ter nascido num mundo onde um Buda apareceu e ensinou o Dharma, de termos encontrado um Mestre espiritual e termos recebido as suas instruções. Agora cabe-nos usar esta preciosa vida humana para progredir na via da libertação.
O segundo aspecto do Bodhicitta, o aspecto voltado para a sabedoria, é a realização da vacuidade de modo a alcançar a iluminação em benefício dos outros. Estas duas Bodhicittas - os meios hábeis da compaixão e a sabedoria da vacuidade - nunca devem ser separadas. São como as duas asas de um pássaro, ambas necessárias para que ele voe; não se pode realizar a iluminação somente através da compaixão, nem tão pouco através da realização da vacuidade por si só.
Fazer algo de virtuoso com uma motivação vulgar vai certamente trazer-nos alguma felicidade, mas só temporariamente. Essa felicidade logo se esvai, e o nosso derivar desamparado no samsara continuará. Por outro lado, se tudo o que fazemos, dizemos e pensamos é transformado pela Bodhicitta, a felicidade continuará sempre a aumentar e nunca se esgotara. O fruto das acções motivadas pela Bodhicitta, ao contrário do fruto das acções positivas feitas com uma motivação menos nobre, nunca pode ser destruído pela cólera ou por outras emoções negativas.
Portanto, o que quer que façamos, de corpo, palavra ou espírito, o espírito é sempre o mais importante. É por isso que os ensinamentos budistas se concentram no aperfeiçoar do espírito. O espírito é como um rei, o corpo e a palavra são como servos que devem se curvar à sua vontade. É o espírito que concebe a fé e é o espírito que concebe a dúvida; é o espírito que concebe o amor e é o espírito que concebe o ódio.
Por essa razão devem interiorizar o olhar e verificar a vossa motivação, uma vez que é ela que determina o carácter positivo ou negativo do que estão a fazer. O espírito é como um cristal transparente que toma a cor de qualquer roupa que traga vestido – amarelo numa roupa amarela, azul numa roupa azul e por aí adiante. Da mesma maneira a vossa atitude colora o espírito e isso determina o verdadeiro carácter das vossas acções, seja qual for a aparência que tomem. A natureza deste espírito não é algo de remoto e impossível de conhecer, ela está sempre imediatamente presente. No entanto se quiserem ver como ela é, não encontram nada que seja vermelho, amarelo, azul, branco ou verde; não é quadrado nem redondo, não tem forma de pássaro nem de macaco, nem de coisa alguma. O espírito é simplesmente o que concebe e lembra pensamentos inumeráveis. Se a corrente de pensamentos é virtuosa, domaram o espírito; se negativa não o dominaram.
Amestrar o espírito exige perseverança. Nunca pensem: “O Buda é completamente Iluminado, Chenrezig é a própria encarnação da compaixão; mas uma pessoa vulgar como eu, como poderia ser capaz de ajudar os seres?”..não se desencorajem. À medida que a vossa motivação vai crescendo cada vez mais vasta, também a vossa capacidade para agir positivamente vai aumentar. Talvez neste preciso momento não tenham a mesma habilidade de Chenrezig, mas a maneira de a desenvolver é praticando o Dharma. Se mantiverem a aspiração constante de beneficiarem os outros, o poder para realmente o fazer virá de si mesmo, tão naturalmente como o correr da água num ribeiro







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