O nosso corpo pode ser comparado a um barco e a nossa mente, ao seu capitão. Se os utilizarmos bem, poderemos cruzar as traiçoeiras correntes da existência cíclica até às margens da verdade absoluta. Obter essa excelente oportunidade e não fazer uso dela, representa um enorme desperdício, como se tivéssemos viajado para uma ilha de jóias que realiza desejos, e não tivéssemos trazido nenhuma de volta connosco. Que arrependimento sentiríamos! Tal renascimento representa o culminar de uma grande virtude e fervente aspiração de seguir na prática espiritual. Isso não significa que não hajam dificuldades e frustrações. Temos que suportar o nascimento, a doença, a velhice e a morte e, muitas vezes, não podemos obter o que queremos, ou evitar o que não queremos ou manter o que temos. Contudo, usufruímos de dezoito liberdades e condições favoráveis, resumidas no termo tibetano dal djor; dal aludindo ao facto de estarmos livres das oito condições desfavoráveis, e djor, de sermos dotados de dez condições favoráveis.
Sermos dotados das oito liberdades significa que estamos livres das circunstâncias que tornam a conexão com o Dharma quase impossível. Elas incluem o facto de estarmos livres do renascimento:
· Como um ser dos infernos, ou um ser nascido nos reinos dos espíritos ávidos , ou animal, o que implica um insuportável sofrimento;
· Entre os deuses de longa vida, que nos seduz com irresistíveis prazeres dos sentidos (nos reinos inferiores dos deuses) e estados agradáveis de consciência (nos reinos superiores dos deuses);
· Numa cultura perniciosa, que admite a violência e o mal e nos exclui do contacto com o Dharma sagrado;
· Com visões erróneas, que nos faz depreciar o que é sagrado e benéfico e apreciar o que é prejudicial;
· Numa era obscura, na qual nenhum Buda se tenha manifestado, privando-nos de um caminho espiritual; e, finalmente,
· Com deficiências físicas ou mentais tão severas, que nos impossibilitassem de ouvir ou compreender os ensinamentos.
As dez condições favoráveis dividem-se em duas categorias. A primeira inclui condições que correspondem à situação particular da pessoa: ter nascido como ser humano, morar num lugar onde o Dharma pode ser encontrado, ter todas as faculdades em pleno funcionamento, não ter cometido crimes infames (como ferir um Buda, matar o pai ou mãe, ou causar uma forte cisão na sangha), e ter confiança na doutrina moral do Buda como a fundação de todas as qualidades positivas. A segunda categoria inclui condições que definem o contexto geral no qual o desenvolvimento espiritual ocorre: o surgimento de um Buda no mundo, o ensinamento da doutrina, a qualidade de duração da doutrina, a oportunidade de praticar os ensinamentos e a presença de professores, cuja compaixão altruísta e amor sustentem o empenho espiritual da pessoa.
A extrema dificuldade de se encontrar um renascimento plenamente dotado de todas as liberdades e condições favoráveis no reino humano é ilustrada por determinadas metáforas. Por exemplo, diz-se que o número de seres dos infernos comparado ao de seres humanos é como o número de partículas de poeira nessa terra, comparado ao de partículas de poeira sob a unha de um dedo. O número de seres humanos indiferentes à espiritualidade comparado ao daqueles que a procuram, é como a multiplicidade de estrelas que podem ser vistas à noite, comparada àquelas que são vistas durante o dia, e entre os que procuram o caminho espiritual, aqueles que o praticam com seriedade são ainda muito mais raros.
Outra forma de pensar sobre a dificuldade de se encontrar um renascimento humano, envolve a imagem de todo o universo como sendo um vasto oceano. Na superfície desse oceano, há uma bóia que flutua em função dos ventos e correntes e, nas profundezas desse oceano, nada uma tartaruga cega que sobe à superfície uma vez por século. As hipóteses de se encontrar um renascimento humano, são iguais às probabilidades que a tartaruga cega tem, que sobe à superfície a cada cem anos, de encaixar a sua cabeça no centro dessa bóia que flutua no oceano universal.
Os ocidentais, frequentemente, acreditam que uma pessoa renasce como ser humano vez após vez, e tendem a considerar suas vidas passadas como uma série de aventuras fascinantes que estão além da memória. No entanto, na verdade, todos tivemos uma interminável variedade de renascimentos desde o primórdio sem princípio da existência, cada qual, com um exacto reflexo do nosso karma e muito poucos deles como seres humanos.
O nosso corpo é uma entidade composta, que se desintegra em pó com a morte. A mente é insubstancial, mas tem uma poderosa continuidade. Tanto a sua natureza imutável quanto as suas tendências kármicas, continuam através dos ciclos de morte e renascimento. Temos somente que inspeccionar os pensamentos que nos vêm à mente, para constatar que só uma pequena fracção deles, é do tipo que gera um karma afortunado o suficiente para obtermos um nascimento humano plenamente dotado. A maioria dos pensamentos, está maculado pelo apego e pela aversão. Até os pensamentos subtilmente envenenados podem impedir um renascimento auspicioso, mas os piores pensamentos, repletos de violenta raiva, podem impelir-nos a um renascimento nos infernos.
Patrul Rinpoche compreendeu claramente a subtil conexão entre pensamentos, karma e renascimento. Teve uma vida simples e ascética, frequentemente viajando, sem nunca levar muitas coisas consigo, ouvindo ensinamentos de muitos lamas. Algumas vezes, esses lamas não faziam ideia que o humilde monge, que ouvia os seus discursos com tanta intenção, era o renomado escolástico Patrul Rinpoche, pois ele não dizia o seu nome, nem demonstrava o seu status com um dos mais reverenciados Lamas da sua geração.
Um dia ele parou numa campina. Enquanto descansava, desfrutando o céu azul e o tapete de flores que cobria a terra, pensou: "Que lindo!"… e logo a seguir acrescentou: "Que eu não renasça aqui!" Mais tarde explicou que o apego à beleza do lugar poderia levar a um renascimento ali, possivelmente como um animal, talvez até como um insecto, já que ali não havia habitantes humanos.
Se contemplarmos profundamente a preciosidade do nascimento humano, nos inspiraremos a fazer bom uso dele com o seu insuperável potencial para a iluminação. Tomá-lo como certo causará um pesar incomensurável. No tempo que nos resta, devemos treinar a nossa mente e vencer os pensamentos indomáveis, antes que se proliferem nas incontáveis formas do samsara.
Práticas Preliminares do Budismo Vajrayana: Instruções para o Dudjom Tersar Ngöndro
Compiladas dos ensinamentos de Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche por Chagdud Khadro.
Compiladas dos ensinamentos de Sua Eminência Chagdud Tulku Rinpoche por Chagdud Khadro.

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