Em geral quando falamos de espírito, não sabemos muito bem do que estamos a falar. Devido à sua perspetiva materialista, a cultura ocidental considera que a consciência depende do funcionamento do cérebro e que a atividade cerebral e consciência são dois nomes para a mesma coisa. Para o budismo não é assim. Sua Santidade Dilgo Khyentse Rinpoché dizia: "Aquilo a que habitualmente chamamos de espírito é o espírito iludido: é um turbilhão de pensamentos atiçados pelo desejo, pela aversão e a ignorância. Esse espírito, ao contrário da Consciência iluminada, que é a nossa verdadeira natureza, anda sempre enganado, anda sempre iludido".
Para o budismo, o objetivo da Dharma é o reconhecimento dos níveis mais profundos do espírito, para podermos atingir a libertação definitiva da ilusão.
A natureza verdadeira da mente é pura como a água pura e cristalina de uma nascente da montanha. Independentemente da sujidade que essa água possa vir a ganhar ao longo do seu percurso pela montanha, a natureza da água permanece sempre pura. Isto é uma analogia que mostra o que se passa connosco desde toda a eternidade.
O que dá início à sujidade da água pura da montanha é, por analogia com o que se passa connosco, a Ignorância. Ou seja, uma vez surgida a Ignorância face à nossa verdadeira natureza, mergulhamos naquilo que se chama a dualidade, a separação do espaço-tempo. Uma vez surgida a Ignorância, surge o pensamento, este cria o conceito ilusório do “eu”, este agregado a que nós chamamos de ego, e à qual tanto nos agarramos, à qual tanto nos identificamos e apegamos como algo de intrinsecamente real, de sólido, de tangível. Este “eu”, uma vez surgido, passa a ser um conceito surgido pelo espírito que está iludido, que está obscurecido, e não pelo espirito na sua verdadeira natureza. O espírito que pensa “eu” é totalmente desprovido de existência e de caráter substancial. No entanto, assim que surge o conceito do “eu”, apegamo-nos a ele como algo de sólido, de real, e é a partir daí que o corpo vem à existência com os seus 5 sentidos e 8 consciências.
A partir da Ignorância, o mundo ou nos atrai ou nos cria repulsa, ou seja, uma vez surgida esta perceção do “eu”, temos a tendência a nos apegarmos ao que percecionamos de prazer e a rejeitar o que percecionamos como fonte de sofrimento - nasce assim o desejo e a aversão - assim ambos precedem da ignorância, de não vermos o mundo tal como ele é. Como ambos surgem da ignorância, diz-se no budismo, que esta é a causa – raiz da ilusão, o veneno base. Uma vez surgidos estes três venenos, estes três obscurecimentos de base, nascem todas outras emoções perturbadoras. Desses três venenos de base surgem mais dois, a inveja e o orgulho, que por sua vez dão origem aos 84000obscurecimentos que existem. Assim, estes três venenos de base encadeiam irremediavelmente as emoções perturbadoras que são afinal véus que nos impedem de ver a realidade dos fenómenos, tais como eles são. O véu das emoções perturbadoras impede-nos de ver a natureza do nosso próprio espirito e alimenta aquilo que se chama de espirito iludido. Uma vez surgidas essas emoções, elas impelem-nos ao movimento…e assim surge o Karma. Esse movimento, essa ilusão de tal modo nos distrai que continuamos, vida após vida, submetidos aos elementos que nos impedem de ver a vida tal como ela é…a cada nova vida esquecemos os sofrimentos das vidas passadas e recomeçamos tudo como se tudo fosse novo. Ao longo de um sem número de vidas temos vindo a acumular ações baseadas num conceito ilusório, algo que, na realidade, nunca existiu. Do pensamento surge a mente…e é da mente que germina as raízes do Samsara com os seus milhares de brotos, de galhos, de tenras folhas e frutos. Assim como o fogo é reabsorvido pela própria fonte quando o combustível se consome, também a mente é reabsorvida pela sua fonte, quando todos os pensamentos são eliminados.

Boa tarde
ResponderEliminarObrigada pela partilha deste interessante texto.
Queria falar com o Abel, o meu email: madel.holos@gmail.com
Obrigada