"Todos os fenómenos são manifestações da nossa mente muito subtil. Eles surgem dessa mente como as ondas surgem do oceano.”
O grande Mahasiddha Saraha
Segundo o budismo tântrico a mente é um continuum sem forma, que tem como função perceber e entender os objectos; ela não é o cérebro ou qualquer outra parte ou função do corpo. O cérebro é um objecto físico que pode ser visto, fotografado ou submetido a uma cirurgia. A mente por outro lado, não é algo material. Ela não pode ser vista com os olhos ou fotografada ou operada. Não há nada dentro do nosso corpo que possa ser identificado como sendo a nossa mente, porque o corpo e a mente são entidades diferentes. Nas escrituras budistas, o nosso corpo é comparado a uma hospedaria, e a mente, ao hóspede que ali reside. Quando morremos, a mente deixa o corpo e vai para uma próxima vida, como um hóspede que sai de uma hospedaria e vai para outro lugar.
Existem três níveis de mente: densa, subtil e a muito subtil. As mentes densas, incluem percepções sensoriais, como a visual e a auditiva, e todas as mentes normais do estado desperto, inclusive as delusões (1), como a raiva, a inveja, apego e a forte ignorância do auto-agarramento (2). Essas mentes densas estão relacionadas com os ventos interiores densos e é relativamente fácil reconhecê-las. Os ventos interiores (3) são ventos-energia subtis que fluem pelos canais (4) do nosso corpo e servem para movimentar a mente para o seu objecto. Quando dormimos ou morremos, as nossas mentes densas dissolvem-se interiormente e as subtis tornam-se manifestas. As mentes subtis estão relacionadas com os ventos interiores subtis e são mais difíceis de serem reconhecidas do que as densas. Durante o sono profundo e no processo final da morte, os ventos interiores dissolvem-se no centro do chakra (5) do coração, dentro do canal central; então a mente muito subtil, a mente de clara luz, torna-se manifesta. A mente muito subtil está relacionada com o vento interior muito subtil e é extremamente difícil de reconhecê-la. O continuum dessa mente não tem começo nem fim; é ela que passa de uma vida para outra e que, se for completamente purificada pelo treino em meditação, se transformará na mente omnisciente de um ser iluminado.
Os cientistas modernos, embora ainda não aceitem a existência das mentes subtis e muito subtis, estão lançados na pesquisa do espaço externo e o espaço interno ou sub-atómico no nível grosseiro (denso).Já foram desenvolvidas muitas tecnologias para a utilização do espaço relativo externo e interno de uma forma benéfica como, por exemplo, a energia de fusão e a micro-electrónica. Geralmente, quando falamos no espaço, pensamos no espaço externo, o espaço do mundo e do cosmos que nos cerca. Todos nós temos uma imagem do espaço externo como algo de ilimitado e vazio, excepto pelo brilhar das estrelas, planetas e galáxias. No entanto, muito mais interessante que isso, é o facto de que todos nós possuímos um espaço interno correspondente no nosso ser. Na realidade, o espaço na nossa mente, no nosso mundo pessoal ou samsara pessoal, é maior do que todo o espaço deste planeta. E, assim como o espaço do universo externo, ele parece ilimitado e vazio. No entanto, o nosso espaço interno pessoal tem mais qualidades que o espaço externo. O espaço externo tem a capacidade de sustentar os fenómenos, enquanto o espaço interno é a nossa ilimitada capacidade para desenvolver a mente e o potencial humano. O espaço interior é grande como o Universo. Podemos achar isto estranho, mas o facto é que actualmente a física nuclear já comprovou que a energia existente entre as partículas mais pequenas no interior do núcleo dos átomos de hidrogénio é superior à energia contida em muitos anos luz do espaço sideral.
O Tantra é um sistema prático de ciência interior que trabalha coma as energias muito subtis do nosso corpo e mente, usando e desenvolvendo o nosso tsa, lung e thigle. Muito resumidamente podemos dizer que o Tsa é a rede de canais de energia subtis que permeiam todo o nosso corpo. Esses canais são muito mais subtis que as nossas veias, artérias e nervos; por isso não conseguimos vê-los, mesmo com microscópios ou máquinas de ressonância magnética. O tsa (ou canais subtis) existe no nosso corpo de energia subtil, e nele fluem os cinco maiores e cinco menores ventos subtis; estes ventos interiores a que a medicina tibetana chama de lung, sustentam por sua vez os diferentes níveis de mente. Os ventos interiores contêm a força vital ou prana (em tibetano srog-lung).Os tibetanos identificam um carácter de reciprocidade entre a mente e os ventos, de sorte que o domínio e estabilização dos ventos também estabiliza a mente. Esse é o princípio básico de todo o yoga. Poderemos compreender tal relação se reflectirmos em como o nosso padrão respiratório se altera conforme o nosso estado mental e emocional. Basta-nos pensar na diferença da nossa respiração quando estamos zangados e quando estamos concentrados. Por fim temos o sistema das gotas ou thigles, que constituem a essência da energia masculina e feminina e que são a base do nosso corpo de essência energética.
Hoje em dia sabemos que os pequenos discos dos computadores são capazes de armazenar uma quantidade extraordinária de dados e informações e isso se deve ao facto desses discos estarem a utilizar a qualidade do espaço correctamente; segundo a tradição tântrica tibetana o corpo humano (que é considerado como o Agregado mais maravilhoso em todos os Universos), possuí dentro de si um “disco”, chamado “disco do espaço-vajra”, que tem uma capacidade de armazenamento de espaço, milhões de vezes superior aos mais avançados computadores actuais. O nosso ilimitado disco de espaço interior, encontra-se na nossa mente muito subtil e no vento contínuo subtil da energia sogdzin-lung e localiza-se no chakra do coração. Este é um dos cinco ventos principais e é a “base física” do nosso disco do espaço interior. Nesse disco, é armazenado todo o nosso conhecimento e as nossas experiências, e é feito o registo kármico (6) de todas as acções positivas e negativas, que nós cometemos ao longo do contínuo das nossas vidas anteriores até ao momento presente. Esse disco é a única bagagem que podemos levar connosco quando a nossa mente passa de uma vida para outra.
Todos os fenómenos do mundo externo e interno são flashes manifestando-se e desaparecendo da existência na esfera da vacuidade(7) e bem-aventurança. Todos os fenómenos passam por vários estágios de transformação ou manifestação, desde pura energia até a matéria grosseira. Da esfera da vacuidade e bem-aventurança surge uma sílaba-semente “mântrica“subtil pura, ou vibração pura, que se transforma nos incontáveis fenómenos grosseiros do universo relativo Na realidade, tudo aquilo que percepcionamos no chamado universo exterior e interior emana da nossa mente muito subtil e advêm do nosso karma. O facto de dois, ou mais seres, terem a mesma visão da vida, seja a que nível for, significa que o karma dessas pessoas é concordante, o que possibilita precisamente essa mesma visão…bom, mas isso será tema para outro artigo…até já.
(1) Factor mental que surge a partir da atenção imprópria e serve para tornar a nossa mente agitada e descontrolada. Existem três delusões principais: a ignorância, o apego e a aversão. Destas, nascem todas as demais - inveja, orgulho, dúvida deludida etc.
(2) Mente conceitual que considera todos os fenómenos como inerentemente existentes. Ela dá origem às demais delusões, como a raiva e apego. É a raiz de todos os sofrimentos e insatisfações.
(3) Correntes energéticas, que fluem através dos canais do corpo. O corpo e a mente não podem funcionar sem esses ventos. (este conceito será explicado com mais pormenor num próximo artigo*)
(4) São condutos internos subtis do corpo, através dos quais fluem as gotas subtis (thigles) movidas pelos ventos interiores
(5) Termo sânscrito, cuja tradução é roda-canal. Centro focal de onde os canais secundários saem do canal central. Meditar sobre esses pontos causa a entrada dos ventos internos no canal central (*)
(6) Karma significa acção e refere-se à lei de causa e efeito, segundo o qual todas as nossas acções de corpo, palavra e mente são causas, e todas as nossas experiências são os seus efeitos.
(7) Ausência de existência inerente, a natureza última de todos os fenómenos.

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